Narcotraficantes citam deputado Itamar em escutas da Polícia Federal

Publicado em 12/08/2017 00:08

Por Allan de Abreu e Vinicius Marques
Foto: Guilherme Baffi

O deputado Estadual Itamar Borges, líder do PMDB na Assembleia Estadual, manteve relacionamento muito próximo com uma quadrilha internacional de narcotraficantes libaneses radicada em São Paulo. É o que indicam escutas da Polícia Federal autorizadas pela Justiça na Operação Beirute, deflagrada em 2014.
Os diálogos foram revelados com exclusividade no livro-reportagem “Cocaína: a rota caipira”, do repórter especial do Diário Allan de Abreu, lançado em maio deste ano pela editora Record. Em um único flagrante, a PF apreendeu 1,2 tonelada de cocaína pura da “máfia libanesa” em Rio Claro (SP). Avaliado em R$ 70 milhões, o entorpecente seria exportado via porto de Santos para a Europa. A droga estava oculta em carregamento de porcelanato.
A PF captou algumas conversas de Itamar diretamente com os traficantes, que estavam com os telefones grampeados. Todas as conversas são muito curtas, em que o deputado apenas agendava encontros com os libaneses, principalmente Hicham Mohamad Safie, um rico empresário de pouco mais de 30 anos que atuava nos ramos de perfumaria e medicamentos.
Hicham se dizia assessor de Itamar, embora não estivesse registrado como servidor na Assembleia, e se gabava de manter inúmeros contatos no mundo empresarial, político e policial em São Paulo. Em 2010, foi acusado de entregar aparelhos de TV como propina a policiais federais em troca da não fiscalização do estabelecimento de um amigo libanês na Capital.
No dia 5 de novembro de 2014, logo após a eleição, disse haver entregue “20 mil para o deputado”, sem especificar nomes. Quatro meses antes, dia 30 de julho, em plena campanha eleitoral, citou o nome de Itamar – para a PF, trata-se de Itamar Borges – em conversa com Hussein Ali Jaber, também acusado de integrar a quadrilha de narcotraficantes.
— O que você acha se eu levar aquele deputado, aquele que é ali da esquina, para falar com Al Mokadam (algum delegado ou coronel, segundo a PF), ou não? — Hicham sugeriu a Hussein.
— Como é o nome dele?
— Itamar.
— Ah, esse aí é gente fina!
— O que você acha? Será que levo ele?
— Fala com Al Mokadam e marca um dia pra ir com ele!
Hicham tinha créditos com Itamar, conforme indica conversa dele, em tom ameaçador, com um amigo chamado Cosme:
— Com relação a Itamar, você não precisa pedir nada, pois Itamar sabe muito bem o que tem que ser feito; seu compromisso desde 2009 e 2010; Itamar já sabe o que tem que ser feito para você. Itamar sabe o que tem pra perder.
Em 2010, Itamar foi eleito pela primeira vez para o posto de deputado Estadual com 79 mil votos. Antes, ele havia sido prefeito de Santa Fé do Sul por dois mandatos (2001-2008). Não houve indiciamento do parlamentar pela PF na Operação Beirute.
Itamar admite encontros com os libaneses, mas nega irregularidades nesse relacionamento e o atribui ao período eleitoral (leia mais nesta página).
Michel Temer
Hussein mantinha um relacionamento estreito com o embaixador do Líbano em Brasília e transitava com facilidade nas altas rodas políticas da capital federal, conforme fica claro em conversa com um amigo libanês:
— Eu te falei terça-feira — disse o colega — que eu fiz um jantar para Michel Temer e para o (então) presidente do Supremo, Lewandowski. Eu tinha convidado ele (homem que quer falar com Hussein, não identificado nas escutas) também, e ele me perguntou de você. Eu falei pra ele que te ligaria. Veja quando você pode vir pra avisá-lo. (colaborou Allan de Abreu)
Grupo traficava para Hezbollah
Os libaneses Hussein Ali Jaber, Hicham Mohamad Safie e Nahin Fouad El Ghassan, segundo a PF, financiavam grandes carregamentos de pasta-base adquiridos na Colômbia, transportados até o Paraguai e levados em caminhões até um galpão em Rio Claro, onde a droga era refinada e escondida em cargas de porcelanato ou óleo de girassol, seguindo até o porto de Santos com destino à Europa, Líbano e África.
Parte da logística cabia a Nahin, empresário em Curitiba dono de vários imóveis. O libanês mantinha uma empresa de exportação em Rio Claro, a HTM, em sociedade com o brasileiro Walter Fernandes. Em 2013, a HTM havia exportado 20 mil garrafas de óleo de girassol para o Líbano, via porto de Paranaguá (PR). A PF suspeita que junto ao óleo tenha sido remetida uma carga de cocaína ao país árabe, onde o irmão de Nahin, Elie Fouad Ghassan, e um primo chamado Jorge negociavam a droga, segundo a DEA – Drugs Enforcement Administration –, departamento antinarcóticos dos EUA.
Há indícios de que um dos destinos da cocaína no Oriente Médio fosse o grupo terrorista Hezbollah.
— Se Deus quiser vai dar certo — disse a Hicham um libanês não identificado, radicado em Caracas. — É que tem aquele cachorro.
— Quem é esse aí?
— Nasrallah (para a PF, trata-se de Sayyid Hassan Nasrallah, secretário geral do Hezbollah).
— O que tem ele? — perguntou Hicham, mostrando-se incomodado em tratar do assunto por telefone. — Quando você chegar aqui, a gente conversa.
Todos respondem a ação penal por tráfico internacional e associação para o tráfico na Justiça Federal de Piracicaba, ainda não julgada.
Relação foi ‘política’, diz parlamentar
A assessoria do deputado Itamar Borges qualificou o relacionamento entre o parlamentar e os narcotraficantes libaneses como “político”, durante a campanha eleitoral de 2014. “O relacionamento político (…) é o único que o parlamentar possui com estas entidades e comunidades”, afirma a nota.
Para a assessoria, o livro “Cocaína: a rota caipira” “aborda uma passagem isolada, em que uma pessoa afirma conhecer o deputado Itamar Borges. Não menciona nenhum envolvimento do parlamentar” com crimes.
“Durante o período eleitoral, o parlamentar se relaciona com lideranças e participa de reuniões e encontros em diferentes grupos e comunidades, como sindicatos, entidades de classe, clubes, associações de bairros, entre outros”, conclui a nota.
‘Foro dificulta investigação’
O foro privilegiado da classe política na Justiça dificulta investigações sobre o envolvimento de deputados, senadores, governadores e prefeitos com o narcotráfico no Brasil. A opinião é do delegado da Polícia Federal Victor Hugo Rodrigues Alves, que atuou por muitos anos no combate ao tráfico de drogas e atualmente chefia a Delegacia de Combate à Corrupção e Crimes Financeiros, em São Paulo. Investigações criminais, segundo ele, precisam ser ágeis, com sucessivos pedidos de quebra de interceptação telefônica e telemática, o que tribunais superiores nem sempre são capazes de prover. A seguir, a entrevista:
Diário da Região – O sr. acredita que a relação do narcotráfico com a política no Brasil seja uma caixa preta que ainda precisa ser aberta?
Victor Hugo Rodrigues Alves – De fato, nas investigações da Polícia Federal sobre organizações criminosas de narcotraficantes não é comum o envolvimento de políticos. Houve casos, como a Operação Beirute, onde de fato se constatou relacionamento entre um político e um membro da quadrilha, mas não restou comprovada a associação criminosa entre ambos, seja o financiamento de suas campanhas com o dinheiro da organização, seja a prática de atos pelo agente público que pudessem configurar tráfico de drogas.
Diário – O fato de os políticos contarem com a proteção do foro privilegiado prejudica investigações desse tipo?
Alves – O chamado foro privilegiado dificulta qualquer tipo de investigação envolvendo as pessoas que possuem tal prerrogativa, já que uma investigação bem- sucedida deve ser ágil, e os tribunais brasileiros se encontram assoberbados de trabalho e nem sempre conseguem examinar os pedidos da autoridade policial com a celeridade que se requer. E investigações de tráfico de drogas e de lavagem de dinheiro demandam vários pedidos de quebras de sigilo fiscal, bancário, telefônico, telemático etc.
Diário – A Lava Jato trouxe uma gama de estratégias de lavagem de dinheiro por parte de alguns políticos, incluindo o caixa um, as declarações oficiais de receita de campanha. Não seria possível e até provável que a política também lave dinheiro sujo do narcotráfico?
Alves – No campo da possibilidade eu diria que sim, mas não é o que temos verificado, como regra, nas investigações que versam sobre tráfico de drogas na Polícia Federal.
Diário – Embora a lei de repatriação de dinheiro no exterior proíba a entrada de dinheiro oriundo de crimes, qual o risco de dinheiro do narcotráfico estar sendo repatriado ao Brasil e “lavado” por meio dessa brecha legal?
Alves – A questão da repatriação de recursos no exterior é, antes de tudo, um assunto de política fiscal. No entanto, o tema deve ser analisado com bastante cuidado uma vez que, sem as devidas cautelas, a lei de repatriação pode, sim, servir à lavagem de dinheiro, o que já foi mencionado pelo diretor-geral da Polícia Federal.Fonte: Diário da Região

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