O fardo de se falar o que precisa

Publicado em 28/03/2020 00:03

Desde muito novo sou “pra frente”. Irreverente no sentido literal da palavra, que seria “não prestar reverência”. Sempre fui desconfiado, e ao mesmo tempo quando confiava: confiava até demais. Por vezes sou dramático, e acho importante ser para demonstrar ao outro – quando se vale a pena – a dor que este nos causa.
Mas, enfim, algo que nunca fui foi leniente. Leniente é aquela pessoa que concorda com o que decidem para e por ela. Que escolheu fingir viver num mundo sem injustiças, sem violência ou sem desigualdades, por exemplo.
Particularmente, defendo muito os direitos políticos e sociais que a nossa Constituição nos garante. E, por isso, devo respeitar tais direitos mesmo quando o pensamento do outro cidadão for divergente do meu. Isso é inteligência.
Desde que ingressei na graduação em Direito, em 2014, passei a compreender a importância de não ser leniente com as medidas errôneas, contraditórias, ilegais e injustas que ocorrem em nosso meio. Seja no âmbito profissional, social, público ou particular, passei a ser justo com meus ideais. Desde então, por vezes, sou visto como chato simplesmente por não compactuar com situações injustas, desiguais e que firam a nossa Constituição e nossa Democracia.
Muitas pessoas pedem para que eu não fale, não faça e não escreva minhas ideias. Mas eu faço.
Por ser crítico à Administração Municipal desta cidade, não consigo contar o tanto que sou “manjado” na cidade, a má vontade com que sou tratado. Estes dias atrás fui tentar negociar uma famosa dívida em um certo prédio público, e já na espera, eu e minha Patrona fomos recebidos com muito deboche. Ao entrar na sala para o atendimento, posso dizer que nunca fui tratado de forma tão dura. Se eu fosse alguém leniente com as atitudes de tal administração e ficasse a render elogios descabidos ou, até mesmo, ficar quieto e não falar nada sobre ela, o atendimento que eu receberia seria igual ao que sempre tinha antes de levantar questões, à época, em favor da minha classe?
Se no artigo 37 da Constituição diz que igualdade é um dos princípios da administração pública, devem me tratar da mesma forma que trata o filho de um amigo, de um grande empresário da cidade e também aquele que não tem bem algum, simplesmente tratando igual e fazendo o que se pode fazer para todos, sem favorecimento. Mas isso, na nossa terra, é difícil. Manda quem tem mai$.
Eu não paro de falar com ninguém por ter opinião política diferente da minha. E isso é uma escolha. É como eu falei, se eu posso pensar como penso, porque você não pode pensar como quer pensar? E, se pensar, porque tenho que te tratar de forma diferente? Te perseguir? Te prejudicar? Não fazer o que posso fazer para te ajudar?
Utilizar da máquina para manter o poder é indigno com todo o povo que merece respeito e igualdade.
Falar e apontar o que precisa requer que carreguemos um fardo pesado no ombro para sempre. Que tenhamos diariamente um alvo bem grande afixado em nossas costas.
É estar por vezes sendo observado para que achem formas de lhe descreditar, anulando a pouca voz que conquistamos por falar aquilo que as pessoas gostariam de falar, mas não têm a coragem e disposição de ficar “marcado”. Eu prefiro ficar marcado e ser prejudicado que ser leniente e injustamente beneficiado.

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