A arte de roubar

Publicado em 5/05/2018 00:05

A arte de roubar já foi tema de livro, filme e artigo de revista. Infelizmente esta arte existe desde o tempo do império romano. Hoje quero pedir licença ao articulista J.R. Guzzo para adaptar o seu excepcional texto escrito, na revista Veja, esta semana. As eleições para o rei da selva se aproximam. Os candidatos ao cargo máximo da floresta já se inscreveram: Rato, Raposa, Lobo, Bicho Preguiça, Gavião, Coruja, Águia, Morcego, Carrapato Estrela, Sanguessuga, Tartaruga, Gazela, Cobra ensaboada e Carneiro. Como as empresas e os empreiteiros da mata não podem patrocinar a campanha eleitoral deste ano, o Leão, o atual rei da selva, decidiu pegar a verba dos cofres da floresta para financiar os candidatos. Em outras palavras, os políticos vão fazer sua campanha com dinheiro roubado diretamente dos súditos, os animais que vivem na selva e pagam seus impostos corretamente. Eis aí uma safadeza sem limite, da extrema direita à extrema esquerda, na cara de todo mundo e em plena luz do dia. Não é pouco, bicho. O Tesouro Nacional vai doar aos políticos, para suas “despesas de campanha” mais de 2 bilhões de verdinhas. É uma aberração que tiveram a coragem de chamar de “Fundo de Defesa da Democracia”. Vem se somar ao “Fundo Partidário”, vigarice antiga criada para dar aos partidos políticos, a cada ano, quantias desviadas dos impostos e destinadas a ajudar na sua “manutenção”. É uma conquista notável para os anais da arte de roubar. Quatro anos atrás, a mesada anual das gangues que fazem o papel de “partidos” no Congresso Nacional era de 300 milhões de verdinhas. Foi aumentando, aumentando e agora, diante da necessidade de “defender a democracia”, está reforçada por esse novo 2,0 bi. A desculpa é que há eleições neste ano e as doações de “caixa dois”, imaginem só, foram proibidas pelos nossos tribunais superiores. É mais ou menos assim: como está teoricamente mais difícil praticar crime eleitoral, chama-se a bicharada para fornecer a bufunfa que os criminosos desembolsavam até agora. Brilhante. O que querem mesmo é o arame. É o desejo de todos. Se o metal foi para os partidos é porque não foi para ninguém mais, ele foi desviado das áreas de saúde e educação para o cofre dessas figuras que estão propondo a salvar a floresta. O fabuloso “Estado Florestal”, essa entidade sagrada, não tem gaita para comprar um maço de cipó. Mas tem, de sobra, para dar a qualquer mula que consegue o registro de uma candidatura. Claro que tem. A grana não é “do Estado”, ou “do governo”, ou “do Leão”. Isso não existe. Estado algum tem cacau; quem tem o tutu que eles gastam é você, animal. É de você que eles roubam, e são justamente os mais pobres que ficam com o prejuízo pior. Quando se tira o tostão dos ricos e dos pobres ao mesmo tempo, quem é que sofre mais? Até o momento, só o candidato Carneiro, do Partido Virgem, recusou-se a receber esse pixuleco: o partido deixou parados no banco os 2 milhões de verdinhas que o Fundo depositou em sua conta. Por que nenhum outro bicho fez a mesma coisa? Não perca o seu tempo ouvindo explicações complicadas. Os demais não fizeram porque não quiseram fazer; o que querem mesmo é o cobre. É uma atração e tanto. Derruba até figuras com os teores de pureza revolucionária da candidata Tartaruga que faz cara de horror e se esconde na carcaça diante da hipótese de sujar as mãos com essas sórdidas questões financeiras. Prefere enfiar as mesmas mãos diretamente no seu casco – como se assim a prata roubada ficasse limpa. Da direita velha nem adianta falar; roubar é o seu destino. Mas quando a jovem Gazela da esquerda age igual, e nem se dá ao trabalho de disfarçar, é que a coisa está realmente preta. A selva vai voltar aos tempos do ouro para o bem da floresta.

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