A ovelha negra

Publicado em 16/05/2020 00:05

Para refletir sobre a situação que estamos passando, hoje vou lhes contar uma fábula de um dos mais importantes escritores italianos do século XX, Italo Calvino.
“Havia um país onde todos eram ladrões. Na calada da noite, cada habitante saía, com a gazua e a lamparina, e ia arrombar a casa de um vizinho. Voltava de madrugada, carregado e encontrava a sua casa arrombada. E assim todos viviam em paz e sem prejuízo, pois um roubava o outro, e este, um terceiro, e assim por diante, até que se chegava ao último que roubava o primeiro. O comércio naquele país só era praticado com trapaça, tanto por quem vendia como por quem comprava. O governo era uma associação de delinquentes vivendo à custa dos súditos, e os súditos por sua vez só se preocupavam em fraudar o governo. Assim a vida prosseguia sem tropeços, e não havia nem ricos nem pobres. Ora, não se sabe como, de repente aparece no país, um homem honesto. À noite, em vez de sair com o saco e o lampião, ficava em casa fumando e lendo romances. Vinham os ladrões, viam a luz acesa e não entravam. Essa situação durou algum tempo: depois foi preciso fazê-lo compreender que, se quisesse viver sem fazer nada, não era essa uma boa razão para não deixar os outros fazerem. Cada noite que ele passava em casa era uma família que não comia no dia seguinte. Diante desses argumentos, o homem honesto não tinha o que objetar. Também começou a sair de noite para voltar de madrugada, mas não ia roubar. Era honesto, não havia nada a fazer. Andava até a ponte e ficava vendo a água passar por baixo dela. Voltava para casa, e a encontrava roubada. Em menos de uma semana o homem honesto ficou sem um tostão, sem o que comer, com a casa vazia. Mas até aí tudo bem, porque era culpa sua; o problema era que seu comportamento criava uma grande confusão. Ele deixava que lhe roubassem tudo e, ao mesmo tempo, não roubava ninguém; assim sempre havia alguém que, voltando para casa de madrugada, achava a casa intacta: a casa que o homem honesto devia ter roubado. O fato é que, pouco depois, os que não eram roubados acabaram ficando mais ricos que os outros e passaram a não querer mais roubar. E, além disso, os que vinham para roubar a casa do homem honesto sempre a encontravam vazia; assim iam ficando pobres. Enquanto isso, os que tinham se tornado ricos se acostumaram também, de ir à noite até a ponte, para ver a água passar por baixo dela. Isso aumentou a confusão, pois muitos ficaram ricos e outros ficaram mais pobres. Ora, os ricos perceberam que, indo de noite até a ponte, mais tarde poderiam ficar pobres. E pensaram: ‘paguemos aos pobres para irem roubar para nós’. Assim fizeram os contratos, estabelecendo os salários, as percentagens: naturalmente, continuavam a ser ladrões e procuravam enganar-se uns aos outros. Havia ricos tão ricos que não precisavam mais roubar e que mandavam roubar para continuarem a ser ricos. Mas, se parassem de roubar, poderiam empobrecer porque os pobres os roubavam. Então pagaram aos mais pobres dos pobres para defenderem as suas coisas contra os outros pobres, e assim instituíram a polícia e constituíram as prisões. Dessa forma, anos depois do episódio do homem honesto, não se falava mais em corrupção, só de ser rico ou pobre; e, no entanto, todos continuavam a ser pobres. Honesto só houve aquele sujeito, e morrera logo, de fome”.
Moral da estória: Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas será mera coincidência?

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