Agora é cinza…

Publicado em 8/09/2018 00:09

O Museu Nacional engolido por incêndio destruiu um valioso acervo cultural e testemunhou momentos-chave da história do país. O antigo Palácio Imperial de São Cristóvão, edificação em estilo neoclássico dentro da Quinta da Boa Vista, foi a primeira residência da monarquia portuguesa no Brasil, servindo de cenário para episódios que, segundo historiadores, já marcariam relações escusas do setor público brasileiro com entes privados. Ali moraram o rei D. João VI, os imperadores D. Pedro I e D. Pedro II, além da princesa Isabel e de outros príncipes e princesas. Foi o lugar de todos os rituais importantes da monarquia portuguesa e depois da família imperial brasileira. É uma página da nossa história que perdemos com o incêndio.
Antes de ser conhecido como Quinta da Boa Vista, o lugar era chamado de “Quinta do Elias”, por pertencer ao próspero comerciante e traficante luso-libanês de escravos Elias Antonio Lopes. Ele cedeu sua propriedade a D. João assim que a corte portuguesa chegou ao Rio de Janeiro, em 1808. Em retribuição pelo generoso presente, Elias seria um dos homens que mais se enriqueceriam e ganhariam títulos e honrarias nos 13 anos da corte portuguesa no Brasil. Esse episódio é “um símbolo do toma-lá-dá-cá na história política brasileira”.
D. João VI havia chegado empobrecido ao Brasil, desfalcado de sua grandeza, e aqui a riqueza estava na mão dos traficantes de escravos. E eles queriam agradar o rei, se beneficiar de sua presença. Elias entregou sua propriedade e acabaria recebendo (em troca) importantes concessões de serviços.
A Quinta da Boa Vista que fora entregue por Elias Antonio Lopes a D. João VI era uma edificação simples, mas a família real foi reformando, fazendo cozinha e cocheiras no fundo além de intervenções internas para se criarem aposentos para a Imperatriz Leopoldina. Ali, no papel de monarca regente enquanto D. Pedro viajava a São Paulo, Leopoldina escreveu as cartas advertindo o marido de que Portugal exigia a volta dele. Essa viagem de D. Pedro culminaria na proclamação da independência do Brasil, comemorada em 7 de setembro. De volta ao Rio, é no Palácio Imperial que ele oficializaria a documentação da separação do Brasil em relação a Portugal.
O Museu Nacional foi idealizado por D. João VI e transferido ao Palácio Imperial após a proclamação da República. Foi no Palácio Imperial que D. Pedro I escreveu a carta de abdicação ao trono, em favor de seu filho, que se tornaria D. Pedro II. A abdicação foi a culminação de um grande processo de desgaste político e crise de popularidade enfrentados por D. Pedro I, alvo de crescentes críticas por parte da elite brasileira, que sentia preterida em relação à elite de origem portuguesa.
Mais tarde, no final do século XIX, um levante político-militar abalaria a sustentação de D. Pedro II e resultaria na Proclamação da República, em 15 de novembro de 1889. E foi assim que o palácio que abrigou a monarquia se converteu, entre 1890 e 1891, na sede da Assembléia Constituinte republicana. Foi nos corredores do palácio imperial que ocorreram os debates da primeira Constituição Republicana do Brasil.
No ano seguinte à Assembléia, em 1892, o palácio passou a abrigar o acervo do Museu Nacional. Este havia sido criado anos antes, em 1818, pelo próprio D. João VI, e inicialmente fora instalado no Campo de Santana, Centro do Rio. O museu foi idealizado por D. João como um gabinete de curiosidades, um museu de história natural, para abrigar acervo de zoologia, história antiga e botânica. As coleções científicas do acervo incendiado eram preciosíssimas, inclusive com coleções de história de tribos indígenas que já desapareceram. E sempre foi além de um espaço de exposição, um local de pesquisa, que nesse sentido agora é cinza, porque a verba usada no Museu Nacional em 2018 equivale a 2 minutos de gastos do Judiciário e 15 minutos do Congresso. A Cultura do Brasil agradece!

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