Bafômetro do poder

Publicado em 27/01/2018 00:01

Era de se esperar a condenação unânime de Lula. Só os “cumpanheiros” não acreditavam que isso poderia ocorrer. Este foi o maior erro destes correligionários – o de não querer ver e de tentar promover a cegueira geral, insistindo nas frases como: o homem não tem culpa no cartório, como roedores lêmingues que, muitas vezes desnorteados, avançam sem ver os perigos e caem de penhascos ou se afogam nos rios como se cometessem suicídio coletivo.
O chanceler alemão Helmut Kohl sofreu uma queda parecida com a do Lula. Helmut era um poderoso político quando foi alvo da denúncia de fraude no financiamento de sua campanha eleitoral.
A comparação não vai mais longe porque não havia corrupção e nem enriquecimento pessoal e, principalmente, porque Helmut encerrou voluntariamente sua carreira quando a Justiça alemã reconheceu ter havido fraude, sem tentar desmoralizar os juízes e sem querer abalar o funcionamento da democracia alemã.
Como se costuma dizer, pegou seu chapéu e foi embora, e com isto, evitou ser massacrado. Errar todo mundo erra, mas em certos países o erro é corrigido e punido. E com isso se evita a propagação da infecção que na maioria das vezes causa metástase. Os democratas-cristãos alemães sofreram um choque, mas logo substituíram Helmut por Angela Merkel e, o trauma foi esquecido e o partido voltou ao poder.
Apanhado com a boca na botija em 2005, com o mensalão, Lula jurou inocência e conseguiu ficar no poder; em lugar de levar a sério a advertência, prosseguiu no mesmo caminho, julgando-se intocável e invencível.
Isso tem um nome, é uma palavra de origem grega – hubris – usada para designar aqueles que se embriagam com o poder, quando o poder lhes sobe à cabeça, donde decorre também a afirmativa de que o poder corrompe.
Efetivamente, muitos detentores do poder sofrem de hubris e perdem a noção da realidade, situação agravada pelos que os envolvem e estimulam essa hubris. Lula sofre de hubris, outros tantos políticos já contraíram esta deformação psíquica e cometeram atos ilícitos, que julgavam permissíveis para eles, por serem poderosos.
A história teria sido outra, se Lula tivesse optado pela aposentadoria e em lugar de continuar culpando a Justiça, vestisse a carapuça, fazendo sua mea culpa, expulsado os envolvidos em tramoias e colocado no lugar gente decente, em vez de ficar martirizando nossa democracia com a ladainha do “foi golpe”.
A sua insistência lembra doentes que rejeitam as receitas e conselhos médicos a exemplo de enfisematosos que não abrem mão de tragar seus cigarros. É a hubris que fez Lula pensar num levante popular contra sua condenação e provável prisão.
O nosso sonho, escrito na Constituição, de que o poder emana do povo só poderá se concretizar se exigirmos que todo político seja submetido ao bafômetro do poder.

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