Juiz ‘herói’; Juiz ‘iníquo’

Publicado em 5/10/2019 00:10

Através de Henry Bregalho, filósofo brasileiro, especialista em literatura e história hoje vamos desvendar os mistérios de um herói, até de um super-herói – “mantém-se a lição: mortais, com suas efêmeras asas de cera, jamais devem tentar voar tão alto”.
Assim, o Juiz herói; Juiz iníquo daquela cidadezinha da parábola de Jesus ou outro meritíssimo qualquer ao ser visto de perto e nos bastidores, revela-se como todos os demais mortais: pleno de imperfeições e contradições, de interesses próprios e vaidades que acaba se colocando acima do interesse público. De tanto ditar injustiças volta à condição de mortal e precipita-se em direção ao chão porque ousa voar alto demais e suas asas, de cera, derretem-se ao se aproximar do Sol.
A palavra hybris, do grego, que significa desmedida designa a tragédia dos heróis. Quando o herói desconhece os seus limites e, por causa de sua arrogância e excesso de confiança, confronta a ordem natural do mundo, desafiando até os deuses, às vezes. No conjunto das tragédias gregas, os heróis, por exemplo, ultrapassam seus limites sempre e se dão mal no epílogo.
Grandes juristas como Leonardo Issac Yarochewsky e Francisco Carnelutti lembram respectivamente: “Mais que um ser humano, o bom juiz deve ser humano” e “Para ser um bom juiz um homem deveria ser mais que um homem. Nenhum homem, se pensar no que ocorre para julgar outro homem, aceitaria ser juiz”.
Julgar é muito sério e grave! Gravidade como expressão sinônima de seriedade. O juiz honrado não pode ser “juiz esclepicente”, que faz gingado, graceja e acena para uma parte em prejuízo da outra.
Julgar o semelhante está entre as tarefas mais difíceis, árduas e complexas conferidas a um ser humano.
Se julgar o seu semelhante não é tarefa fácil, quando se trata de juiz criminal o trabalho é hercúleo – “O juiz criminal apaga ou acende a lâmpada do destino, atribui a graça ou a desgraça” sentenciou o jurista Roberto Lyra.
Juiz não pode ter símbolo de herói. É regra no mundo inteiro. Erra a sociedade ao cognominá-lo como tal. Juiz é uma garantia constitucional para todos. Título de herói para juiz é utopia. Não existe universalmente. Todos os que assumiram tal carapuça claudicaram. Mais cedo ou mais tarde caíram do trono. Juiz não pode romper o princípio da imparcialidade objetiva e subjetiva para satisfazer o seu ego. Seria um juiz injusto. Juiz não deve ser bom, nem ruim. Deve ser justo. Não é vencido, nem vencedor, por isso mesmo não pode ser herói!

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