Nelson Pereira dos Santos

Publicado em 28/04/2018 00:04

Nelson Pereira dos Santos é o nosso herói de hoje. Precursor do Cinema Novo e figura chave no cinema latino-americano. Nasceu em São Paulo, em outubro de 1928. Sentia-se muito orgulhoso de sua origem humilde. Depois de estudar direito e entrar para a política, continuou sua formação por um ano como cineasta em Paris, onde estava exilado o escritor Jorge Amado, seu protetor, em meio à perseguição de membros do Partido Comunista Brasileiro. De volta ao Rio de Janeiro, então capital do Brasil, para terminar a faculdade, prestar serviço militar e se tornar pai, começou a fazer cinema e a trabalhar em jornalismo. Assim começou a filmar uma nova “geografia urbana”. Primeiro, em 1950, com Juventude, um documentário de 45 minutos filmado nas ruas e favelas, algo nunca visto antes nas telas de cinema. Depois, como diretor, abre uma nova etapa no cinema brasileiro, que ecoa em 1955, com Rio, 40 Graus. Entre os seus filmes, destacam-se Vidas Secas, em 1963; El Justicero, em 1967; Cinema de Lágrimas, em1995 e Brasília 18%, em 2006, sua última produção, centrada na corrupção da política no Brasil. Sobre este tema da política brasileira, sem dúvida, Nelson profetizou a situação em que se encontra o país atualmente. Também em 2006, tornou-se o primeiro cineasta a entrar para a Academia Brasileira de Letras, devido às suas adaptações literárias de autores como Graciliano Ramos, em Vidas Secas que ganhou o OCIC de Cannes ao mostrar a pobreza extrema do nordeste brasileiro. Com o filme Memórias do Cárcere, venceu em 1984, o prêmio FIPRESCI, o da crítica internacional, no festival francês.
Em 1980 o nosso herói esteve em nossa Estância para rodar uma película com artistas do naipe de Nádia Lippi, Turibio Ruiz, Marthus Mathias e a prata da casa, Raimundo Silva. Tiveram participação especial no filme, o prefeito da época, Edinho Araújo, os radialistas Arlindo Sutto e Nestor Machado, o advogado e jornalista, Alcides Silva e o locutor de rodeios, Zé do Prato. Certa vez, numa entrevista feita à revista Piauí o nosso herói disse: “fui convidado a fazer um longa sobre a dupla sertaneja Milionário e José Rico, Estrada da Vida. A ideia era fazer um filme tipo Nashville, uma visão irônica da música caipira, mas me lembrei de como meu pai gostava dessas músicas e decidi fazer um filme respeitoso. Recomendei à minha equipe ouvir música sertaneja até acostumarem os ouvidos. Eram jovens vindos da USP e só queriam rock. Na estréia, os camaradas de esquerda não acreditaram. O filme foi exibido num festival na Itália. Cheguei no final da sessão. Na saída, um amigo uruguaio me viu e atravessou a rua para não cruzar comigo. Em plena ditadura militar, não me perdoaram por fazer um filme sem ideologia”.
O nosso herói de hoje nos deixou aos 89 anos, mas sua passagem por esta vida foi plena, cheia de realizações. Ele conseguiu realizar o que gostava de fazer, que era cinema, tal como a gente, quando menino era fascinado por esta arte. Segundo o seu colega e amigo, Cacá Diegues, Nelson é uma chama que não se apaga, que vai ficar permanentemente na cabeça de todo mundo.

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