O futebol segundo Nelson Rodrigues

Publicado em 14/07/2018 00:07

Quem realmente gosta de futebol deveria ler “Pátria de Chuteiras”, livro de Nelson Rodrigues com uma seleção de crônicas sobre o “esporte bretão”. Ele dava um tom épico aos jogos e os tornava bem melhores que eram na realidade. Mesmo o leitor que não gosta de futebol, ao ler suas crônicas escritas na Manchete Esportiva, na década de 50, fica extasiado pela sua capacidade ímpar de transmitir amor e paixão. Até o berro apaixonado do torcedor – “Vai tricolor!” fica incrivelmente gravado em nossos ouvidos como se estivéssemos na arquibancada do estádio.
A beleza, a inteligência e o humor dos textos são assombrosos. Ao se deliciar com as estórias, você se pergunta com frequência: como alguém pode ter tanto talento para escrever? O futebol para Nelson Rodrigues não era um jogo banal em que onze jogadores de cada lado tentam fazer um gol, mas um épico camoniano, uma luta heróica, não pela vitória, pela vida desses gladiadores uniformizados e cercados por torcidas delirantes.
Lamentamos que na imprensa esportiva não exista outro jornalista comparável ao seu talento literário. O futebol segundo Nelson Rodrigues é muito mais interessante que o futebol real. Com a maior parte dos cronistas esportivos contemporâneos o que acontece é exatamente o contrário.
Nelson Rodrigues foi de uma época fascinante do futebol brasileiro na Manchete Esportiva. O Brasil saía da ressaca de 1950, quando perdeu para o Uruguai na final no Maracanã, Em 1954 foi novamente derrotado. Conseguiu o seu primeiro título, na Copa da Suécia, 1958, com Pelé, Garrincha e companhia.
Em seus textos, Nelson Rodrigues focaliza num fator crucial, pouco valorizado pelos críticos esportivos de hoje: a sorte. Para um time ser campeão, observa ele, não basta ter uma defesa intransponível, um meio de campo genial e um ataque assassino, é preciso ter sorte. O maior exemplo disso é a seleção brasileira de 1982 de Telê, que perdeu a Copa da Espanha, com craques do naipe de Waldir Peres, Leandro, Oscar, Luizinho e Junior, Toninho Cerezo e Falcão, Sócrates, Zico, Serginho Chulapa e Éder. Sem sorte, como dizia, você é “atropelado até por uma carrocinha de Chicabon”. Foi o que deve ter acontecido, nesta Copa, com o time milionário da seleção brasileira.
Sem o complexo de vira-latas, resta pelo menos um consolo: isso não vale apenas para o futebol – mas para a vida em geral. Quem sabe ainda vamos ter sorte de ganhar a Copa da Saúde, da Habitação, da Educação, vencendo de goleada os times da Doença, da Moradia e da Corrupção.

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