O juiz que não se cala

Publicado em 15/09/2018 00:09

O nosso herói de hoje, Oswaldo José Ponce Pérez, juiz federal, de 52 anos, vítima de perseguição política na Venezuela, é um dos milhares de refugiados que se estabeleceram em Boa Vista, Rondônia. Ao chegar, é explorado em trabalho análogo à escravidão e, sem alternativa, decide virar artista de rua. É o início da sua saga. Com muito custo consegue revalidar o diploma no País e começa a trabalhar em mutirões da Justiça, voltados para a legalização de imigrantes que, assim como ele, cruzaram a fronteira a fronteira para fugir da crise venezuelana.
A história do juiz venezuelano é digna de um roteiro cinematográfico. Exposto em unidades de saúde lotadas e calçadas entupidas de barraca, colchões e redes, o nosso herói viveu uma verdadeira luta pela sobrevivência.
No Brasil, Pérez não teve vida fácil, mas conseguiu se estabelecer e hoje ajuda a regularizar a situação de outros refugiados. Trabalha, de forma voluntária, como conciliador na Vara Itinerante. Em junho, o Tribunal de Justiça de Roraima (TJ-RR) fez um acordo de cooperação judicial com o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur), permitindo até que a documentação de processos seja em espanhol.
Por cinco anos, Pérez, então juiz federal, travou uma guerra política com generais e membros do alto escalão dos governos Hugo Chávez e Nicolás Maduro. De família tradicional, Pérez vivia com a mulher e quatro filhos em uma casa de alto padrão com piscina. Também era proprietário de fazenda de gados e carro importado. A perseguição começou em 2010 e teve de responder a processo militar (sem ser militar) e seu veículo, um Camaro, foi incendiado em um ataque.
Em 2013, sofreu o maior dos golpes. O filho mais velho, de 24 anos, foi assassinado em uma emboscada. Pérez estava lutando contra um sistema muito grande e praticamente sozinho. Assim decidiu largar tudo, ou ia ser cassado e preso. Primeiro, pediu afastamento por um ano e visitou o Brasil eviu aqui que as condições estavam melhores. Vendeu os bens por baixo preço, pediu exoneração e trouxe a família ao País – só uma filha ainda vive na Venezuela. Partiu de Ciudad Bolívar, a cerca de 800 quilômetros da fronteira – um dia de carro.
O ex-juiz pediu asilo político em Boa Vista e procurou um novo emprego – com a moeda desvalorizada, o dinheiro que trouxe acabou rápido. Virou auxiliar de mecânico em uma oficina. Trabalhava de domingo a domingo, das 7 às 20 horas, por R$ 50 por dia, mais o almoço: era sempre assado de panela, não tinha variação. Havia dias que nem davam refeição. Lá, o trabalho era pesado: lavava a oficina, varria o quintal, carregava no braço peças de motor. Em vez de receber R$ 350 por semana, passou a ganhar de R$ 30 a R$ 40. Diziam que o movimento estava fraco, mas que iam ajeitar na segunda – mas a segunda nunca chegava. Quando percebeu que estava em um trabalho escravo, pediuseus documentos e o dinheiro, mas disseram que não iam dar porque seria para pagar o barraco onde ele morava. Por esta causa fez denúncia no Ministério Público do Trabalho.
Nos dois anos seguintes, Pérez, que tem formação em violão clássico e toca harpa, viveu como artista de rua. Apoiado pela população de Boa Vista passou a tocar em bares para sobreviver.
Hoje, o nosso herói mora de aluguel na capital e conseguiu revalidar o diploma de Direito. Em novembro, quer prestar exame para Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). Na etapa seguinte quer adquirir a nacionalidade, como forma de agradecer à nação por ter sido protegido e acolhido. O seu objetivo final é prestar concurso para juiz federal e ser útil ao País.

Última Edição