O mecanismo

Publicado em 7/04/2018 00:04

Quando assisti pela Netflix a série, Narcos, de José Padilha, tive a clara impressão de que a estória do traficante colombiano Pablo Escobar era semelhante aos nossos políticos que buscam o poder através do dinheiro fácil. Ao assistir agora, O mecanismo, constatei que a realidade do mundo político superou em muito a ficção. Quem em sã consciência poderia imaginar que na base do sistema político brasileiro existiria um mecanismo de exploração da sociedade por quadrilhas formadas por fornecedores do estado e grandes partidos políticos? Você meu querido leitor poderia acreditar que o mecanismo opera em todas as esferas do setor público como no legislativo, no executivo, no judiciário, no governo federal, nos estados e nos municípios? No executivo ele opera via o superfaturamento de obras e de serviços prestados ao estado e as empresas estatais. No legislativo ele opera via a formulação de legislações que dão vantagens indevidas a grupos empresariais dispostos a pagar por elas. Como as leis são feitas por congressistas corruptos, e os magistrados das cortes superiores são indicados por políticos pelo mecanismo, é natural que tanto a lei quanto os magistrados das instâncias superiores tendam a ser lenientes com a corrupção. O mecanismo nos estados e municípios funciona tal como no governo federal. O mecanismo existe à revelia da ideologia, pois viabilizou a eleição de todos os governos brasileiros desde a retomada das eleições diretas, sejam eles de esquerda ou de direita. O mecanismo opera uma seleção: políticos que não aderem a ele ficam com poucos recursos para fazer campanhas eleitorais e raramente são eleitos. A seleção operada pelo mecanismo é ética e moral, assim políticos que tem valores incompatíveis com a corrupção tendem a serem eliminados do sistema político brasileiro, pelo mecanismo. O mecanismo impõe uma barreira para a entrada de pessoas inteligentes e honestas na política nacional, posto que as pessoas inteligentes sabem como funciona e as pessoas honestas não o aceitam. E para piorar, a grande maioria dos políticos brasileiros tem baixos padrões morais e éticos. A administração pública brasileira se constitui a partir de acordos relativos a repartição dos recursos desviados pelo mecanismo.Um político que chega ao poder pode fazer mudanças administrativas no país, mas somente quando estas mudanças não colocam em cheque o funcionamento do mecanismo. Um político honesto que porventura chegue ao poder e tente fazer mudanças administrativas e legais que vão contra o mecanismo terá contra ele a maioria dos membros da sua classe. A eficiência e a transparência estão em contradição com o mecanismo. Resulta daí que na vigência do mecanismo o estado brasileiro jamais poderá ser eficiente no controle dos gastos públicos. As políticas econômicas e as práticas administrativas que levam ao crescimento econômico sustentável são, portanto, incompatíveis com o mecanismo, que tende a gerar um estado cronicamente deficitário. Embora o mecanismo não possa conviver com um estado eficiente, ele também não pode deixar o estado falir. Se o estado falir o mecanismo morre. O Brasil atual está sendo administrado por um grupo de políticos especializados em operar o mecanismo, e que quer mantê-lo funcionando. O desmonte definitivo do mecanismo é mais importante para o Brasil do que a estabilidade econômica de curto prazo. Sem forte mobilização popular é improvável que a Lava-Jato promova o desmonte do mecanismo. Se o desmonte do mecanismo não decorrer da Lava-Jato, os políticos vão alterar a lei, e o Brasil terá que conviver com o mecanismo por um longo tempo. A nossa maior arma é o voto, mas não é a nossa grande esperança porque ainda não estamos preparados para a democracia.

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