Otavio Frias Filho

Publicado em 25/08/2018 00:08

O nosso herói de hoje não poderia ser outro. Ele é o jornalista Otavio Frias Filho, diretor de redação da Folha de São Paulo por 34 anos.
Como leitor assíduo da Folha durante 40 anos, quero expressar os sentimentos de pesar à família Frias através do colunista Reinaldo Azevedo.
“Otavio Frias Filho era um dos homens mais cultos e talentosos do país. Dramaturgo de primeira, jornalista rigoroso, ensaísta ousado, era dono de uma inteligência fulgurante e de uma discrição como não se vê por estas plagas. Avesso a rapapés, a solenidades balofas, a formalismos vazios, desenvolveu, no entanto, um senso de decoro que era difícil de acompanhar.
Otavio tinha uma elegância única no trato da matéria intelectual e profissional. Sob seu comando, fez-se o maior e mais irritante jornal do país. Quando menos se espera, lá está a Folha a dar voz a quem muitos, incluindo muitos de nós, gostariam ou de silenciar ou de relegar ao oblívio. Ele riria discretamente, com lábios finos e severos, desse “oblívio”.
Otavio desenvolveu a mais aguda vista que conheci para o contraditório, para a pluralidade, para a diversidade de vozes. E isso está presente na imensa obra que construiu. E é pela obra que verdadeiramente conhecemos os homens.
Os que o amavam, os que admiravam o seu trabalho no jornal, os que apreciavam o seu rigor intelectual, bem, estes todos sabemos a falta que fará. É claro que não havia boa hora para que nos deixasse. Mas também é verdade que se vai em um de nossos piores momentos. A sua precisão e o seu rigor poderiam ser a trilha clara numa país que flerta com obscurantismos desiguais e combinados.
O Brasil merecia mais Otavio. Os bons mereciam mais Otavio. Os pulhas também.
Mas ele se vai como viveu: discreto, sem alarde, sem estrondo. E deixa uma grande obra. Honrou com sobras aquele que o antecedeu. Foi generoso ao dividir o seu talento, as suas aflições e as suas prefigurações com seus contemporâneos. E deixa, como o poeta Horário, um monumento mais duradouro do que o bronze para os que desejam honrá-lo. Tomara que, num particular ao menos, ele estivesse errado, e eu, certo. E, nesse caso, ele experimenta o Bem d’Aquele que o amou com a discrição necessária para mantê-lo por perto”.

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