Procura-se um Príncipe

Publicado em 2/05/2020 00:05

Após a queda de Sérgio Moro, ministro da justiça do governo Bolsonaro nesta semana, desencadeou-se uma grave crise política no Brasil.
O povo, indignado com esta situação, está procurando um “salvador da pátria”, talvez “O Príncipe”, de Nicolau Maquiavel. Por ironia do destino, Maquiavel escreveu esta obra-prima da política, um verdadeiro manual do poder, mas pessoalmente não se deu bem na vida pública.
As fortes ideias de “O Príncipe” forjaram o adjetivo “maquiavélico” para definir um indivíduo que busca o poder sem escrúpulos, mas na realidade o escritor mostra como as coisas funcionam na prática. Inspirou-se em César Bórgia, estadista italiano, que passou pela política, igreja e exército sempre com perfil pragmático.
Para Maquiavel, o líder ideal deveria ser perspicaz como a raposa e feroz como o leão. Ele poderia fazer inimigos e promover punições mais duras desde que estivesse em busca de um bem maior.
Mas o líder defendido por Maquiavel não podia ser um louco desvairado: tinha de agir com sabedoria.
O autor nunca pregou planos diabólicos, como assassinatos políticos, ou artimanhas que lhe classificariam como maquiavélico. Foram os leitores que interpretaram a receita de Maquiavel como uma espécie de carta branca para a maldade. A clássica frase “Os fins justificam os meios” resume bem sua ideia, mas não foi escrita pelo autor — é um dito popular.
Para conhecer bem o caráter do povo, é preciso ser príncipe, e para conhecer bem o do príncipe, é preciso pertencer ao povo. É melhor ser temido do que ser amado. O príncipe é aquele que tem de eleger seus inimigos.
Os homens amam conforme sua vontade e temem conforme a do príncipe. Um príncipe sábio deve se apoiar naquilo que depende de sua vontade e não naquilo que depende da vontade de outros.
Conselho ao príncipe depois de escolhido o ministro: “quando vires que o ministro pensa mais em si próprio do que em ti, e que em todas as suas ações procura tirar proveito pessoal, podes ter a certeza de que ele não é bom, e nunca poderás fiar-te nele. Aquele que tem em mãos os negócios de Estado não deve pensar nunca em si próprio, mas sempre no Príncipe e nunca lembrar-lhe coisas que estejam fora da esfera do Estado”.
O príncipe que desejar ter sucesso em seu empreendimento deve partir da regra de que as pessoas são más e que na primeira oportunidade elas demonstrarão essa maldade, geralmente traindo o seu superior.
O Príncipe que depende de muitos costuma não ter sucesso.
Nunca faltará ao príncipe razões legítimas para burlar a lei.

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