Quem apedreja hoje pode virar o apedrejado amanhã

Publicado em 14/04/2018 00:04

O nosso herói de hoje é o sociólogo Sérgio Adorno, estudioso de direitos humanos e conflitos sociais. Numa entrevista dada à Folha de São Paulo disse que a onda de violência na política, a exemplo da morte da vereadora Marielle Franco e os tiros na caravana do ex-presidente Lula, mostra que a democracia brasileira não superou a fase de autoritarismo. Para ele o país tem que distanciar do autoritarismo para que o diálogo substitua o poder conquistado por intermédio da força e afirma que a polarização fermenta o radicalismo, que deve ser combatido, sob pena de sair do controle. Segundo a sua visão, a violência política ocorre porque no Brasil não estabelecemos o limite do confronto. Numa sociedade democrática, existem mecanismos institucionais de enfrentamento dos conflitos, como os partidos, os espaços parlamentares, a mídia. O limite do confronto é provocar dano à integridade física do seu opositor. Nós ultrapassamos este limite tornando os conflitos cada vez mais graves e passionais, levando a ideia de que problemas só são resolvidos com a supressão do opositor, transformando em inimigo. Isso faz parte de uma sociedade democrática que ainda lida mal com seus conflitos. Qualquer um pode ter posições políticas divergentes da do candidato Lula da Silva, mas isso não justifica agressão à integridade física de quem quer que seja, tanto dele como de opositores. A polarização que vivemos funciona como um combustível. Ela constrói um mundo de polaridades não negociáveis: certo e errado, justo e injusto, acerto e erro, verdade e mentira. A sociedade democrática é justamente aquela que lida com as diferenças. Tem havido uma radicalização tanto da direita como da esquerda, mas nem toda esquerda é radical assim como a direita. A polarização é um mal e incompatível com a vida social. A vida democrática precisa de previsibilidade de comportamentos. Se você vai para um debate sabendo que vai matar ou morrer, não é debate, é confronto de forças. Temos de enfrentar isso, porque a situação pode sempre se inverter. O apedrejador de hoje pode ser o apedrejado de amanhã. Tal como a trilha sonora da novela O Outro Lado do Paraíso, Boomerang Blues, de Renato Russo que diz: Tudo que você faz, um dia volta para você…

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