Rosa de Hiroshima

Publicado em 15/08/2020 00:08

Há quem diga que poesia é música, mas sem ritmo e sem melodia. Com certeza, o compositor e músico Gerson Conrad, integrante do grupo musical Secos & Molhados, concorda com esse pensamento porque em 1973 a banda escolheu musicar o poema Rosa de Hiroshima, do poeta Vinicius de Moraes. Os versos de Rosa de Hiroshima são muito significativos, fortes e são um registro da nossa história. Vinicius de Moraes escreveu o poema Rosa de Hiroshima inspirado no ataque atômico provocado pelos Estados Unidos contra o Japão no final da Segunda Guerra Mundial.
A tragédia ocorreu há 75 anos, no dia 6 de agosto de 1945, sendo o primeiro e único momento na história em que armas nucleares foram usadas em guerra e contra alvos civis. A bomba, nomeada de Little Boy, foi uma demonstração de força nuclear estadunidense nas cidades de Hiroshima e Nagasaki. Estima-se que o ataque provocou a morte de mais de 250 mil pessoas. As pessoas que sobreviveram, além do dano emocional e psicológico, tiveram graves ferimentos como queimaduras e surdez. O ataque deixou uma grande cicatriz anos seus arredores. Ao longo dos anos, o número de pessoas que nasceram enfermas, com cânceres, deformações físicas, cegas ou com problemas respiratórios foi incalculável. Sem contar a devastação da vegetação e a contaminação que ocorreu em rios, lagos e plantações pelas chuvas ácidas.
Escrito em 1946 e publicado no livro Antologia Poética, o poema tinha o nobre objetivo de ser um protesto contra os ataques, além de levantar a bandeira pacifista e antinuclear. Anos depois, em 1973, os versos foram musicados pelo grupo Secos & Molhados.
“Pensem nas crianças mudas, telepáticas/Pensem nas meninas cegas, inexatas”.
Esses versos mostram os efeitos da radioatividade nas crianças, vítimas inocentes que nada fizeram para sofrer no conflito de duas grandes nações.
“Pensem nas mulheres, rotas alteradas”. Quando o poeta propõe que pensem nas mulheres, ele pede que reflitam sobre as consequências que a radioatividade pode causar no corpo delas, tornando difícil, ou até impossível, que elas engravidassem no futuro. As rotas alteradas são futuros incertos.
“Pensem nas feridas como rosas cálidas”. Pensem nas feridas físicas, emocionais, como quem cuida de delicadas rosas. Entretanto, essa rosa tem um diferencial, ela é cálida, ou seja, quente.
“Mas oh! / Não se esqueçam da rosa, da rosa/Da rosa de Hiroshima, a rosa hereditária/A rosa radioativa, estúpida, inválida/A rosa com cirrose a antirrosa atômica/Sem cor, sem perfume, sem rosa/Sem nada”.
Os últimos versos fazem menção explícita ao bombardeamento em Hiroshima, que irradiou doenças e uma grande contaminação nas pessoas e no solo por várias gerações. O poeta usa rosa como uma metáfora ao momento em que a bomba explodiu, formando uma imagem semelhante a uma rosa se desabrochando.

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