Stanislaw Ponte Preta

Publicado em 13/04/2019 00:04

É um lamento cada dia mais frequente: “Ah, se o Lalau fosse vivo!” “Que falta o Sérgio Porto faz!” São reflexões iguais, já que Lalau e Sérgio Porto eram uma só pessoa.
Lalau, autoapelido de Stanislaw Ponte Preta, foi o heterônimo com que o jornalista, humorista, radialista, televisista e teatrólogo Sérgio Porto se consagrou como o maior e mais popular gozador do país em seus últimos quatro anos de vida, quando se concentrou na edição do Febeapá (Festival de Besteira que Assola o País), resenha em forma de crônica sobre a imbecilização diária do Brasil instrumentalizada (ou estrumentalizada, diria ele) pela ditadura militar.
O nosso herói de hoje gozava como ninguém e de forma implacável os poderosos do dia e nossos mais ridículos costumes.
Sérgio (Marcus Rangel) Porto morreu cedo. Tinha 45 anos quando seu coração de boêmio e workaholic cansou de dar hora extra e ele apagou. Por 74 dias não pegou o AI-5. Por seis meses não pegou O Pasquim, de que foi padrinho espiritual. Por um ano não pegou Paulo Maluf na prefeitura de São Paulo.
Cocoroca era uma das gírias mais usadas pelo Lalau. Também inventou as expressões bossa nova, teatro rebolado, picadinho relations, e um punhado de bordões com a mesma estrutura comparativa, que logo entraram para o linguajar das ruas: “mais por fora que umbigo de vedete”, “mais por baixo que calcinha de náilon”, “mais branco que bunda de escandinavo”, “mais feio que mudança de pobre”.
Escrevia como um malandro mais íntimo do vernáculo que de uma navalha. Mas suas irreverências lanhavam com classe e desconcertante bom humor. Quando soube, por exemplo, que “otoridades” ungidas pela ditadura haviam proibido biquinis nas praias, namoro em praça pública, pernas de fora e máscaras no carnaval, venda de vodca (bebida “comunista”), espetáculos censurados e seus defuntíssimos autores, como Sófocles e Feydeau, intimados a depor na delegacia mais próxima.
Ele dizia que a prosperidade de alguns homens públicos do Brasil é uma prova evidente de que eles vêm lutando pelo progresso do nosso subdesenvolvimento. Em matéria de sexo afirmava: homem que desmunheca e mulher que pisa duro não enganam nem no escuro e conclui – pelo jeito que a coisa vai, em breve o terceiro sexo estará em segundo e adverte: rabo e conselho só se deve dar a quem pede. Sobre o acesso a “rede social” da época, dizia: nem todo rico tem carro, nem todo ronco é pigarro, nem toda tosse é catarro, nem toda mulher eu agarro.

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