A DOENÇA

Publicado em 13/11/2021 00:11

A pandemia tem várias óticas, dentre elas a de biossegurança e da antropologia. Isto porque a pandemia é um evento múltiplo e desigual, gerando crise de grandes proporções, principalmente aos trabalhadores e aos mais vulneráveis.
Assim, não é só o problema da identificação dos agentes patogênicos, mas a falta d’água, o trabalho precário, descasos com indígenas, ônibus lotados, as linhas de produção, as festas clandestinas, dentre outros que acabam por agravar a crise e, bem por isso, fazem parte da ‘pandemia’. O vírus é um só dos componentes, mas o ambiente de risco e vulnerabilidade das pessoas preocupam a ciência, a antropologia e a biossegurança devem ser resgatadas em seus devidos lugares.
O professor dos pampas Jean Segata fez uma pesquisa e identificou que dos 7.693 casos da Covid-19 dos trabalhadores da agroindústria de carne representam 1/3 do contingente dos contaminados no Rio Grande do Sul. E nesse período de pandemia deu-se o recorde de produção de carne no RS e também houve o aumento vertiginoso do preço da carne e da cesta básica (71 % do valor do salário mínimo). Com esse quadro, a única conclusão lógica é a de que o agronegócio não quer produzir carne e acabar com a fome, quer ‘cultivar’ dinheiro.
Essa situação decorre, em apertada síntese, do processo de subordinação das plantas, animais e mulheres a destruição capitalista e machista.
A despeito de importantes iniciativas de saúde pública no Brasil, como o caso do SUS há, no atual momento, um crônico desinvestimento em ciência e um crescente distanciamento entre ela e a elaboração de medidas pontuais e políticas públicas abrangentes, tudo isso promovido pelos ‘negacionistas’ e pelo atual governo.
A abordagem do tema é complexa e deve perpassar pelas críticas antropológicas às tecnologias de produção e de manipulação da vida, as relações entre humanos, animais e ambientes e à própria globalização.
A questão na agenda atual é questionar o modo como a intervenção humana tem adoecido a vida do planeta. Cabem aos jovens as iniciativas de salvar a Terra, ainda.
A Covid-19, pois, é uma tragédia que não veio sozinha, veio acompanhada de mudanças climáticas em escala global e de um imenso emaranhado de miséria, sofrimento e falta de empatia que desenham um futuro incerto. São os efeitos de um projeto acelerado e destrutivo para o ‘controle’ e o ‘consumo’ da natureza convertida em mercadoria. O que temos vivido com a Covid-19 é apenas um sintoma. A verdadeira doença é o capitalismo arcaico e ‘improdutivo’, que tem por base a ganância financeira.

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