(autodidata e humildade)

Publicado em 13/01/2018 00:01

Edson Aparecido de Oliveira, meu amigo, conhecido pelo apelido ‘Boquinha’ na cidade de Três Fronteiras, nunca foi contemplativo, sempre prático e por muitos anos foi servente de pedreiro e com muita disposição se agarrava na picareta, movimentava argamassa. Era um trabalhador braçal. Seu pai, ao contrário, o Zé do Violão era absolutamente contemplativo, gostava de tocar violão. Era um trabalhador também, mas adorava e sabia tocar violão, daí o apelido.
Lembro-me do dia em que ele tocou todo o ‘hinário’ (livro de canções e louvores a Deus) sem nunca ter ouvido quaisquer daqueles hinos. Bastava o ‘irmão’ balbuciar os ritmos e as notas musicais e ele, no violão, dedilhava, como se pertencesse àquela comunidade religiosa.
Lembro aqui do ‘Zé do Violão’ para ressaltar nesse início do ano o que é ser um autodidata e obviamente humilde.
Os estudos oficiais são necessários e importantes, mas há certas pessoas que nos intrigam, a exemplo do Zé do Violão. No cenário mundial temos Jimi Hendrix, Abraham Lincoln e, ainda, especificamente no Brasil Machado de Assis.
Ano passado, nessa coluna lembrei-me do músico trifronteirano Pascoalão, também autodidata, mas esqueci de destacar essa característica, qual seja a capacidade de aprender algo sem ter um mestre e o respeito às pessoas revelando uma relação humilde de amizade.
Dessas figuras aprendi que seja autodidata ou ‘estudado’ o que vale a pena é a humildade.
E para entendê-la basta contrapor à soberba.
A soberba, ou a entronização do ‘eu’, além de afastar a pessoa da genialidade, constitui uma doença.
E ela se manifesta de várias formas: a) presunção, que é uma arrogante exaltação de si mesmo; b) arrogância, que é uma complacência consigo mesmo, uma prepotência; c) ambição, que é uma tendência ao poder; d) vaidade, que é uma frívola procura de estima; e) jactância, que é a vontade de se mostrar; f) audácia, que é o cometimento de atos temerários.
E, normalmente, o ‘soberbo’ – ao contrário do saudoso ‘Zé do Violão’ não consegue ver o lado positivo das pessoas. O soberbo é causa de discórdias e dissensões, não soma, porque ele não trabalha no coletivo, pois só usa o pronome ‘eu’. Ele – o soberbo – é o samba de uma nota só.
Não vira música.
Saudades do Zé do Violão e do Boquinha, que estão no céu.
Fizeram uma orquestra de amigos em Três Fronteiras.
Ao escrever sobre essas figuras nessa crônica lembro a frase de Lao Tse: “quem conhece a sua ignorância, revela a mais alta sapiência. Quem ignora a sua ignorância, vive na mais profunda ilusão.”

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