CARTA PARA CÍCERO

Publicado em 14/04/2018 00:04

Naquele dia, diferente de todos, acordei às 4 da manhã.
Criança ainda, por curiosidade, queria ir a Riolândia – SP, acompanhar os apanhadores de algodão.
Fui um dos primeiros a chegar no ‘ponto’. Depois foram chegando outras pessoas que estranhavam minha presença.
Não que eu fosse ‘rico’ ou de ‘família de posses’. É que as pessoas, no seu meio, se reconhecem mutuamente. De certa forma eu era um estranho.
Mas no dia anterior eu combinei com o Cícero que estaria lá e cumpri.
Cícero chegou e nas mãos o ‘caldeirãozinho de marmita’, mas o caminhão já estava lotado e não pelo seu atraso, que foi de poucos minutos, mas é que o ‘gato’ já havia selecionado os apanhadores para aquela ‘viagem’, que eram muitos.
Observei que ficaram para trás, os mais velhos, as crianças e as mulheres.
Vi no olhar de Cícero uma tristeza, mas o alegrei quando o chamei para jogar bola na rua. Eu ia perder a aula naquele dia, Cícero já as perdia em todo o período de colheita. Naquele dia após o jogo eu almocei o banquete do Cícero, composto na marmita de ‘arroz’ e ‘ovo’ e ele comeu o meu almoço servido pela minha mãe (arroz, feijão, bife e tomate).
Cícero era magro, miúdo, esquelético, parecia que ia ‘quebrar’.
Mas Cícero tinha uma rapidez e força incríveis. À época, apesar da tenra idade, já ‘catava’ 5 arrobas de algodão.
Não sei onde ele anda.
Sei que hoje ninguém mais vai a Riolândia ‘catar’ algodão.
Eu, em decorrência de minha profissão, vou sempre naquela cidade visitar presos e em uma dessas viagens relembrei de Cícero.
Cícero não mora mais em Três Fronteiras e acho que deve ter se aposentado se contou o ‘tempo rural’.
Desejo que ele esteja com saúde e feliz.
Eu vou continuar indo a Riolândia e sempre peço não encontrá-lo naquele lugar, verdadeiro inferno.
Prefiro até que meu amigo esteja junto de Deus, no céu, se for para vê-lo naquele lugar. É o que fico pensando quando vou a Riolândia, e se ele, por ventura, ler essa carta peço para não chorar, porque ao destinatário dela quero transmitir só o desejo de uma sociedade igualitária, solidária e mais justa para todos e assim ficam as lágrimas só para o remetente.

Última Edição