‘CHIFRE’ NEM SEMPRE É COISA DO ‘DIABO’

Publicado em 26/05/2018 00:05

Quando falamos da cultura negra, nos remetemos aqui no Brasil ao continente Africano.
Surgem as polêmicas de ordem material, tal qual a ‘indenização material’ que devemos ao povo africano.
Ação afirmativa igual à cota racial é avaliada com preconceito e egoísmo por parte daqueles que se julgam donos dos bens materiais produzidos pela economia brasileira.
Neste artigo quero falar da ‘religiosidade’, ou seja, do preconceito às religiões de matrizes africanas, como se fossem ‘coisa do Diabo’.
A visão de mundo Ocidental é eminentemente materialista e não compreende mesmo a realidade Africana.
Na África a visão de mundo, do seu povo, é subjetiva.
Lá se afasta a ideia do objetivo, não se tem lugar para a ciência e nem a técnica, que dá lugar a ‘magia’ e à arte de conciliar as coisas invisíveis.
Há, na cultura negra africana, uma rejeição a tudo que se oponha à natureza.
O homem não deve ‘dominar’ a natureza, e sim adaptar-se aos fins naturais.
A religiosidade africana também. A fonte delas é a natureza. Por isso inspiram-se nos ‘animais fortes’ da natureza, geralmente têm ‘chifres’ para criarem seus ‘Deuses’ e aí obviamente neles colocam ‘chifres’.
Já no Brasil, pela cultura judaico-cristã, o ‘chifre’ simboliza o ‘Diabo’.
Por isso, as religiões de matrizes africanas são, por vezes, incompreendidas e foram historicamente perseguidas.
Assim, a cultura negra considerará ‘pecado’ toda soberba e vaidade do homem com relação à natureza e toda a resistência às leis que regulam o curso da natureza e a harmonia do mundo.
O ‘chifre’ dos ‘Deuses’ africanos revelam que a natureza é que é a medida de todas as coisas, e não o homem. Ocidente, ‘civilização do homem’. África, ‘civilização da natureza’. Daí decorrem diferenças fundamentais.
Dentro do contexto factual-histórico não há como negar o direito às exigências de ordem material, através de indenizações, cotas etc aos negros, mas é essencial que respeitemos os seus valores, principalmente religiosos, para que a cultura negra seja reconhecida na sua individualidade ética e cultural. Assim, além da dívida histórica do ponto de vista material para com os negros, temos também que respeitar a sua cultura e ter uma nova postura – mais ética – em relação aos seus valores, que são diferentes dos nossos.
E assim nos preocupemos menos com ‘chifres’. No Ocidente esse ‘enfeite’ é coisa de ‘homem traído’, que tem origem Eféso, no séc. 2, onde o grego Artemiro citou ‘Kérita poiein’, significando ‘fazer corno’. Na África não passa de uma referência aos fortes animais daquela selva – a maioria possuindo ‘chifres’ – e, em nenhuma hipótese, representou qualquer relação com o ‘Diabo’.

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