CORAÇÃO SUBVERSIVO – (‘O ÚLTIMO FILME’)

Publicado em 20/11/2021 00:11

O último nem sempre é o final. Aliás, acho mesmo que o último nunca significa o final.
No dicionário pode ser que signifique aquilo que vem depois de todos os demais numa sequência, ou seja, aquilo que sobrou ou restou dentre todos os que havia; o derradeiro.
Depois da minha estória poderemos (re)significar o ‘último’.
Em Três Fronteiras, no cinema do ‘velho’ Moreira estavam Pedrinho Mitsubishi, o casal Pedro Julião e sua esposa e o saudoso lutador Frederico, também acompanhado de sua esposa.
Desce na rampa o senhor Pedro Moreira, pai do Valmir que hoje está em São Carlos e avisa, trêmulo na voz, vou passar o ‘último’ filme aqui em Três Fronteiras, porque o cinema iria ‘fechar’.
O filme foi escrito pelo famoso poeta Gabriele d’Annunzio. O filme fez grande sucesso e é considerado uma das maiores obras cinematográficas do cinema mudo italiano. Maciste era um escravo muito forte que auxiliava o resgate da personagem principal, Cabíria, quando esta ia ser sacrificada no templo de Moloch.
Em Três Fronteiras tinham dois cinemas. Do lá de cá, o do ‘velho’ Moreira e, do lá de lá, o Cine Lux, onde hoje é a casa do ex-prefeito Flavinho, já que a cidade é seccionada pela passagem da estrada de ferro.
No cinema do ‘velho’ Moreira, além de filme havia treinamento de luta de boxe com o saudoso Frederico e as crianças e adolescentes da época.
Naquele dia Pedrinho, apelidado Mitsubishi, teve a oportunidade de ver o ‘último’ filme, na tela do cinema do Moreira.
Mas esse filme já foi passado e repassado na mente de Pedrinho, por diversas vezes, numa lembrança que lhe marca ainda profundamente.
Pedrinho, além de assistir vários filmes hoje pela televisão, internet e diversos meios de comunicação, não pode dizer que aquele foi ‘o último filme’.
Pedrinho vai dizer que foi o primeiro. O primeiro que lhe marcou a alma, que registra em sua memória. Talvez seja o filme primeiro e último de sua vida a fazer sentido. Talvez seja único. Quem sabe?
Pedrinho pode ter assistido diversos filmes, mas igual aquele nunca. Igual não, aquele foi diferente. Veja que aqui, agora, ‘igual’ vira sinônimo de ‘diferente’. ‘Agora’ – nesse exato momento – o filme lhe passa na cabeça: e é um filme do passado. Veja o passado se fazendo presente na cabeça do Pedrinho.
Por isso, por vezes, o último pode ser o primeiro; o primeiro, dependendo do ângulo, pode ser o último, principalmente se visto de trás para a frente.
E o último também não será o final, o fim. Porque sempre teremos novos capítulos a passarem em nossas mentes, que é puramente emocional. E a ordem sequencial quem coloca é o nosso coração, só que ele o faz desordenadamente. O coração é um desordeiro. Subversivo. Graças a Deus!
‘Maciste’ foi ‘o último filme’ a passar nas telas do cinema do ‘velho’ Moreira e daí pra frente, para mim, deixou de ser herói e se tornou um vilão.

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