LATIFÚNDIO II

Publicado em 30/10/2021 00:10

Ademais, a formação e consolidação dos complexos agroindustriais no Brasil, notadamente na década de 70, remontam as inovações contidas no pacote da Revolução Verde, que duas décadas antes gerou um conjunto de inovações de produtos e de processos agrícolas que, aplicados no Brasil, especialmente em meados da década de 60, conseguiu amentar a produção e a produtividade agrícolas. Soma-se a isso a criação de uma política de crédito adequada aos interesses dos grandes fazendeiros que, ao mesmo tempo que fortalecia a agricultura, concentrava a propriedade fundiária e a industrializava de modo a gerar uma cadeia agrícola complexa e industrializada, tanto a montante como a jusante.
A década de 1980 foi bastante peculiar na história econômica nacional, pois após um período longo de crescimento o país passou a apresentar índice de crescimento baixo acompanhadas de inflação alta e elevado grau de endividamento externo. As alterações do ambiente macroeconômico, que passou a sofrer as restrições decorrentes do choque do petróleo, contribuíram para a redução dos investimentos no país e também para o endividamento decorrente do aumento da taxa de juros em escala nacional. A escalada de preços, com taxas crescentes de inflação, também foi decisiva para piorar a situação nacional, notadamente para as classes de mais baixa renda, além de também comprometer as finanças públicas e diminuir o raio de ação do governo frente aos problemas econômicos.
A agricultura acabou por sentir menos, em termos de crescimento, os efeitos deletérios da crise que afetou o conjunto da economia brasileira. Isso se deve em parte pelos incentivos que o setor teve para continuar exportando e gerando superávit, ou seja, recursos financeiros em dólares para serem usados no pagamento da dívida externa. Por outro lado, o risco do desabastecimento de alimentos no mercado interno fez com que o governo também direcionasse políticas específicas para a produção destinada ao consumo doméstico. Cabe destacar para a política de garantia dos preços mínimos, que serviu como um redutor de risco à produção agropecuária no período.
Do ponto de vista agrícola, os produtos mais capitalizados, conseguiram melhor desempenho no período, pela manutenção dos subsídios ao setor para manter elevados as exportações. Entretanto, a redução gradativa da ação estatal no enfrentamento da desigualdade de acesso à terra foi visível. Se, por um lado, a temática entra na pauta do governo como Programa Nacional de Reforma Agrária, por outro lado sua inércia culmina com o aumento dos conflitos agrários e com a polarização das forças do campo, expressa pelo surgimento do MST e da UDR. AS metas ambiciosas de assentamento do governo não foram cumpridas e a reforma agrária foi abandona como política pública de desenvolvimento socioeconômico.
A partir da década de 90 foi marcado por um contexto de orientação neoliberal na condução da política pública econômica mais geral. Nesse contexto, o agronegócio, entendido como associação do grande capital, notadamente o financeiro e o latifúndio, se estruturou, mas agravou as tensões e conflitos por terra no país. O censo agropecuário de 2006 deixou patentes os fortes impactos da política neoliberal sobre a agropecuária nacional: redução do pessoal ocupado, redução de estabelecimentos agropecuários e o avanço do agronegócio. A concentração fundiária mais uma vez foi escancarada, os estabelecimentos rurais com menos de 10 hectares ocupavam, na data do censo, aproximadamente 2,4 % da área total, ao passo que estabelecimentos maiores que 1.000 hectares concentravam 44% do total.

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