NA PALMA DA MÃO

Publicado em 20/06/2020 09:06

O insuperável Fernando Sabino escreveu uma crônica sobre a criança com um globo terrestre nas mãos.
Hoje a criança tem o mundo nas mãos na tela plana do celular. Talvez seja essa a origem dos ‘terraplanistas’ intelectuais da atualidade que acreditam seja o mundo plano.
Com o advento do celular, como ferramenta moderna da tecnologia, a crônica de Sabino precisa ser atualizada.
Digitando, no novo e ‘encantador’ aparelho, você encontra o que quiser e o que não quiser, o que precisa e o que não precisa.
Encontra notícia de que cloroquina cura a Covid-19; remédios salvadores para artrite; feijão abençoado oferecido por ‘novos profetas’ curando também da nova pandemia.
Não precisa mais estudar, basta pesquisar no pequeno objeto e você terá respostas imediatas para todos os males.
E nascem juristas a cada minuto, a cada segundo, numa velocidade impressionante, postando assuntos do Direito que dão lições a Rui Barboza, Nelson Hungria ou Pontes de Miranda, sem sequer um dia na sala de aula.
Medicina, para que médicos, se as receitas agora estão prontas na palma da mão?
Na palma da mão se resolve qualquer problema. Sabe-se tudo. Resolve-se tudo.
Só não coloque na palma da mão de um ativista tecnológico um livro para o digitador ler. Uma caneta para um texto ele escrever. Ou outro texto para ele interpretar.
Ele gosta de replicar mensagens que outros fizeram. Refletir, nem pensar. Pensar, então, impossível.
Hoje se tem, na palma da mão, o mundo. O menino do cronista Sabino saiu chutando o globo na sala. O portador do celular chuta qualquer assunto sem rumo, sem eira nem beira. O importante é ‘acertar’, machucando o seu interlocutor virtual. Na palma da mão o mundo e o cérebro é o dedo.

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