O CASO DO CAVALO ‘MELADO’

Publicado em 1/08/2020 00:08

Helder Mota Ferreira era um jovem estudante em Mogi das Cruzes que conheci em 1980. Veio do norte de Minas Gerais. Habilidoso no futebol, inteligente na escola, sempre preocupado com os desvalidos. Formou-se e retornou para Manga, Minas Gerais, e lá é autor de fatos inusitados e pitorescos.
Ingressou na Justiça com uma medida judicial cujo objeto do litígio era o cavalo ‘melado’ que havia pisoteado o milharal de Jonas Torres Dourado e este, por sua vez, ‘sequestrou’ o cavalo ‘Melado’ pelo dano por ele causado.
Narrou na peça inicial, o espirituoso e extrovertido colega de faculdade, a busca pelo animal em favor da proprietária do cavalo ‘Melado’, Lourdes Pereira dos Santos.
O interessante é que nesse caso, com a mesma simpatia, cortesia e polidez, características das pessoas humildes, o juiz assim despachou, inspirado na narrativa do caso pelo jovem advogado à época.
‘…Mas seu querido cavalo, que trazia coisas pra cidade, o grande e fiel ‘melado’, troncho da orelha esquerda, e com doze anos de idade, se viu numa enrascada, de arrepiar cauda e crina, por uma causa explicada, que por certo é pequenina.
É que Jonas Torres Dourado, lavrador em Japuré, também brasileiro e casado, teve seu milho pisado, sob as patas do pangaré.
O bravo Torres Dourado sequer se fez de rogado ou quis merecer suplício: estando bem chateado, fez arbitrário exercício de suas próprias razões – coisa incomum na cidade, mas sabida nos grotões’.
E o juiz, em prosa e verso, narrou o fato, para ao final decidir, nesses termos:
‘Em face disso é preciso
Ouvirem-se testemunhas,
Pessoas de muito siso,
Em prévia justificação,
Onde confirmem ao juízo:
‘Dona Lourdes tem razão’.
Pela urgência do pedido
Do equino esperado.
O dia 13 se alinha,
Azado que eu entendo,
Sexta-feira na folhinha,
do corrente mês – novembro –
para a audiência marcado,
sem muito fazer alarde,
que o dia é macabro,
às duas horas da tarde.’….
‘Intime-se por mandado
A quem de direito queira
E ao douto Advogado,
Dr. Helder Mota Ferreira,
Por ordem deste togado
Da Magistratura Mineira,
E que vem abaixo-assinado,
Em Manga, com o sol rompendo.
No dia 10 de novembro.’
O caso está, em destaque, no Projeto Sempre Memória, do Tribunal de Justiça de Minas Gerais. Faz parte da Memória do Judiciário Mineiro o meu amigo Helder Mota Ferreira, com quem tive a felicidade de conviver por longos 4 anos. No final houve acordo devolvendo o animal.

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