O ENTREGADOR DE PÃES

Publicado em 30/06/2018 00:06

Era uma época qualquer de um tempo impreciso da minha infância e não sei se depois do Natal, ou anteriormente ao Novo Ano, ou noutro período, e por isso eu não registrei. Posso declinar o tempo anacrônico de minha existência, dez anos. Parece que era para ser uma época alegre, mas não foi. Foi um dia muito triste.
Dentre vários amigos, o Edinho Paz, Carlinhos Fazani, o João Carlos, o Nori, o Mikio e outros, que continuariam em Três Fronteiras, mas naquele dia Severo iria mudar e eu iria experimentar a primeira emoção. A mudança de um ‘amigo de infância’ é ‘traumática’, não quebra os ossos, mas é comovente para uma criança.
E não falaram para mim nem o lugar da mudança, talvez porque tivesse dez anos e ‘moleque’ não precisa ser informado. Pensei que era para capital, hoje sei que foi para São Caetano do Sul, pertencente a grande São Paulo.
Foi o Serginho, suas irmãs e seus pais. E Severo já foi com o codinome ‘Ceará’.
Severo jogava bola comigo na rua cheia de areia e trabalhava entregando pães nas casas das ruas daquela cidade, que não eram esburacadas, pois não tinham asfalto.
Muitas vezes o ajudei a tratar do cavalo, para sobrar mais tempo para junto jogarmos bola (a causa era justa).
Não conseguia entender como eu podia ‘perder um amigo’. Por que isso acontece. Nosso time ia perder um jogador. Na rua o ‘time’ estaria incompleto. Aconteceram mil questionamentos e chegando até Deus. Não teve jeito. Chorei.
Descobri, pela primeira vez e por uma maneira verdadeira, que ‘homem chora’ e, pelo menos, já serviu para quebrar a bobagem desse paradigma de que ‘homem não chora’.
Por isso hoje compreendo o choro do Tiago Silva ou do Neymar, de um jogador ou de uma criança e não acho que falta ‘profissionalismo’ para quem chora.
Severo se tornou um forte empresário na capital bandeirante, foi eleito vereador pelo município de São Caetano e continua com o apelido de ‘Ceará’. Foi educado pelo trabalho e para o trabalho. Batalhou na vida. Aquela ‘mudança’ lhe fez muito bem.
Sempre o revejo, mas nunca tive coragem de perguntar se naquele dia ele também chorou. Desconfio que sim, pois não conheço nenhuma luta que não seja precedida de lágrimas, mesmo nas vitórias ou nas derrotas.
O suor é o choro do corpo. A lágrima é o choro d’alma. Sem eles não existem trabalhos realizados e tampouco objetivos buscados e acontecendo ou não a vitória o importante é a procura, a luta e não se pode desmoronar, se entregar, se abater, antes do apito final. O resultado será sempre óbvia consequência, seja qual for. Valeu a pena.
Naquele dia, tenho certeza, Severo chorou e que bom ainda venceu!

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