O FALCÃO E O POETA

Publicado em 12/06/2021 00:06

O escritor Roberto Vieira fez uma crônica-fake que tratava do poeta (Mário Quintana) e do Falcão (jogador da Seleção e do Internacional) e foi muito polêmica, pois era uma ficção (talvez esse tenha sido o erro do escritor Roberto Vieira). Alguns criticam porque se estaria diminuindo a pessoa e a história do poeta Mário Quintana. Interpreto mais como uma homenagem a ambos. Por isso trago esse ‘fake’ (nova espécie literária) para apreciação dos leitores:
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‘Mário observa as suas malas nas ruas de Porto Alegre. O Hotel Majestic mostrou ao passarinho o olho da rua. Passarão. É a miséria chegando absoluta nesse relativo universo dos poetas. Poetas não foram feitos para a riqueza, quando muito podem conquistar uma princesa com seus versos. Depois voltam ao pântano.
Porto Alegre nunca parecera tão fria e deserta. Um vento sopra do Guaíba e encobre toda a cidade em salinas. Não olhe prá trás. Uma cidade que expulsa um poeta pode te transformar em estátua de sal. Da primeira vez que me feriram.
Mario está só. O Correio do Povo faliu. O passado faliu. As palavras faliram. Como diria o Érico, um imenso megatério se ergue na província rumo aos céus. Um império sem homens e sem sentimentos. O porteiro aproveita e sacode um agasalho que tinha ficado no quarto.
“Toma, velho!”
Mário recita ao porteiro: A poesia não se entrega a quem a define.
Mário Quintana estava só.
Cadê os passarinhos?
A sarjeta aguardava o ancião.
Cadê os passarinhos?
Paulo Roberto Falcão sai do treino. O Internacional cobre de vermelho os Pampas. Quando passa em frente ao Hotel Majestic, Falcão observa aquela cena absurda, patética, inglória. Tudo o que sai impresso é epitáfio. Falcão estaciona e caminha até o poeta com as malas na calçada.
Cadê os passarinhos?
“Sr. Quintana, o que está acontecendo?”
Mario ergue os olhos e enxuga uma lágrima. Ah, essas patéticas lágrimas que insistem em povoar os olhos dos poetas. Quisera não fossem lágrimas, quisera eu não fosse um poeta, quisera ouvisse os conselhos de minha mãe e fosse engenheiro, médico, professor. Mas ninguém vive de comer poesia.
“Sr. Quintana, o que está acontecendo?”
Mario lhe explica que o dinheiro acabou. Está desempregado, sem família, sem amigos, sem emprego. Restaram apenas essas malas nas ruas de Porto Alegre e esse agasalho sacudido pelo moço que trabalha na portaria.
Os passarinhos se foram no inverno de Porto Alegre. Mario observa Falcão colocando suas malas dentro do carro em silencio. Em silencio, Falcão abre a porta para Mario e o convida a sentar. No silencio de duas almas na tarde fria de Porto Alegre, o carro ruma na direção do arquipélago, na direção do infinito. Ser poeta não é dizer grandes coisas.
Falcão para o carro no apart-hotel, desce as malas, chama um dos empregados:
“O Sr. Mario agora é meu hóspede!”
“Por quanto tempo, Sr. Falcão?”
Falcão observa o olhar tímido e surpreso do poeta e enquanto o abraça comovido, responde:
“Por toda a eternidade”.
Todos esses que aí estão.
Atravancando meu caminho.
Ele Falcão!
Eu passarinho!”’

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