XAMEGO

Publicado em 16/05/2020 00:05

Não estou a cometer erro na grafia. Chamego é paixão intensa. O Xamego que trato na crônica é o primeiro palhaço-mulher no Brasil. Só que Xamego, atrás da pintura de palhaço, além de mulher, que obviamente sofria preconceito à época, era também negra.
E ele (se referindo ao palhaço) provavelmente ganhou do rei do baião Luiz Gonzaga a música Xamego que dizia: ‘Ninguém sabe se ele é branco. Se é mulato ou negro’. Era uma negra e mulher.
Uma cronista declarou que ao ver o palhaço Xamego, por trás das cortinas do circo, surpreendentemente ‘viu o palhaço dar os seios para amamentar uma criança’. ‘Hoje consigo falar disso sem chorar’, disse a escritora. Eu também chorei só que ‘ao ver um palhaço chorar’, por detrás das cortinas. Chamava-se Romizeta que inclusive o Jorge (do Farrasom) conheceu.
Xamego, por sua vez, apresentava-se no Circo Guarani, de sua família. A sua neta diz hoje que ‘o Circo Guarani foi um dos maiores do país em 1932, época em que esse espetáculo era uma das poucas ofertas de entretenimentos’. Sim, em torno dos anos 70, na minha infância vi o palhaço Romizeta e tantos outros que me encantaram. Mas nada mais me encantou do que a história de Xamego que trato nessa crônica, pelos aspectos sociais envolvidos (uma mulher negra palhaço).
O bisavô de Xamego era também um negro que, 15 anos após a abolição, se tornou um grande empresário, um grande dono de circo no início do século XX.
Sobre a mulher negra ‘palhaço’, há um filme documentário de 52 minutos que traçou o início da história do circo do Brasil que vale a pena ser assistido.
Há tantos personagens anônimos que contribuem para a história de uma cidade, de um Estado ou de um País que devemos retratar a cada oportunidade, pois são heróis que constroem os bens materiais e imateriais de uma Nação.
A palavra chamego é substantivo masculino, o artista ‘Xamego’ é uma ‘palhaço’ comum de dois, de três, de mil gêneros, que usa a menor máscara do mundo, no nariz, para fazer as pessoas felizes.
Xamego não pode ser esquecido e deve ser sempre lembrado, com paixão intensa.

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