Tópicos da Semana – Edição de sábado – 13/10/18.

Publicado em 13/10/2018 00:10

Por Mário Aurélio Sampaio e Silva.
Charge: Leandro Gusson (Tatto).

E o embate continua…
Já não é mais novidade para ninguém que o candidato do PSL, Jair Bolsonaro, representante da extrema direita, e o candidato do PT, Fernando Haddad, da esquerda, irão disputar o segundo turno das eleições presidenciais de 2018 daqui a exatos 16 dias, após terem disputado o primeiro turno em uma das campanhas mais tensas desde a redemocratização brasileira, e engana-se quem acredita que o dia 28 será diferente, embora muita água há de rolar, até mesmo porque a campanha eleitoral nas rádios e TV começaram ontem, dia 12, quando ambos têm agora cinco minutos para apresentar suas propostas, bem mais tempo do que Bolsonaro teve na primeira etapa e pouco mais do que Haddad tivera.
Um lado
Segundo dados do nexojornal.com.br, o resultado do último domingo, dia 7, de certa forma, reflete um sentimento de rechaço à política tradicional, com a ampla votação de Bolsonaro. Mesmo estando no Congresso há quase três décadas, o capitão da reserva acabou se transformando num símbolo antissistema. Baseia seu discurso na defesa da ditadura militar, na exaltação de torturadores do regime, na apologia a armas de fogo e no ataque a minorias. Na economia, passou a adotar, mais recentemente, a defesa do liberalismo.
Outro lado
O resultado também aponta uma forte resiliência do PT, partido que esteve entre os protagonistas das disputas presidenciais brasileiras desde o fim da ditadura militar, vencendo quatro eleições seguidas a partir de 2002. Em 2016, no entanto, o partido teve uma presidente, Dilma Rousseff, derrubada pelo Congresso num processo de impeachment e viu seu principal líder, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ser preso por corrupção e lavagem de dinheiro pela Lava Jato, além de barrado na eleição pela Lei da Ficha Limpa quando liderava todas as pesquisas de intenção de voto. Haddad construiu sua candidatura fortemente ligada à imagem de Lula, o que para muitos não foi uma boa escolha, embora saibamos que não tinha outra opção a não ser “seguir os conselhos do chefe”.
Xô, Temer
É fato que ambos os candidatos representam uma mudança em relação ao governo que hoje temos, até porque o atual presidente, o vice Michel Temer, que ascendeu ao poder com o impeachment de Dilma, tem o governo mais mal avaliado da história recente. Os candidatos mais ligados a Temer e sua administração, o tucano Geraldo Alckmin e o nome de seu próprio partido, Henrique Meirelles, do MDB, fracassaram na disputa.
Conservadorismo
A vantagem de Bolsonaro sobre Haddad, contudo, demonstra que o sentimento de mudança tende mais para a extrema direita. A onda conservadora também foi registrada em eleições estaduais. O fenômeno Bolsonaro tem apoio de eleitores conservadores no geral, que compactuam com seu discurso, mas não apenas isso. O capitão da reserva acabou por incorporar a figura do antipetismo no Brasil. Trata-se de um lugar que, dos anos 1990 até estas eleições, era ocupado pelo PSDB, e não uma simples coincidência que o desempenho do capitão foi melhor nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste, onde os tucanos costumavam vencer. A ascensão do candidato do PSL ocorre num momento de crise do PSDB, atingido diretamente pelo escândalo da JBS — Aécio Neves, então presidente do partido e candidato derrotado ao Planalto em 2014, que foi flagrado numa conversa pedindo dinheiro a um dos sócios do frigorífico.
Estratégia
Desta feita, o discurso anticorrupção, até então bastante explorado pelo PSDB contra o PT, ficou nas mãos de Bolsonaro. O capitão da reserva é de um partido pequeno, sem estrutura tradicional da política. O candidato só se filiou ao PSL recentemente, já para se lançar candidato à Presidência da República. Não conseguiu fazer aliança com outros partidos maiores (o único parceiro é o PRTB, que indicou o vice na chapa, o general da reserva Hamilton Mourão), e a coligação pequena fez com que Bolsonaro tivesse apenas oito segundos de tempo de TV. O horário eleitoral, historicamente importante para a definição de eleições no Brasil, não fez falta ao candidato do PSL. O pouco tempo de TV parece mesmo ter sido compensado por uma intensa mobilização nas redes sociais e aplicativos de troca de mensagens.
Relembrando…
O fenômeno Haddad foi eleito prefeito de São Paulo em 2012 com apoio direto de Lula. Em 2016, tentou se reeleger com o PT no olho do furacão, meses após o impeachment de Dilma e com a Lava Jato cada vez mais cercando o seu padrinho político. Foi derrotado ainda no primeiro turno pelo tucano João Doria. Em 2018, Lula foi lançado candidato oficial do PT novamente à Presidência, mesmo com o ex-presidente preso, desde abril, em razão do caso tríplex. Era uma aposta arriscada mantê-lo o quanto possível na disputa. O cálculo político era: Lula unia a esquerda, dava fôlego aos candidatos ao Legislativo do partido e poderia, rapidamente, transferir votos a um substituto. O estratagema parece não ter dado tão certo assim.
Lulalá
Lula liderava as pesquisas e agiu, de dentro da cadeia, para manter a hegemonia do PT. Fechou um acordo, por exemplo, com o PSB, para que o partido se mantivesse neutro e não acordasse com Ciro Gomes, candidato do PDT, com entrada no eleitorado de centro-esquerda. O Tribunal Superior Eleitoral barrou o registro de Lula em 1º de setembro e Haddad assumiu a candidatura dez dias depois. O ex-prefeito subiu rapidamente nas pesquisas, mas viu depois sua rejeição também crescer, resultado do sentimento antipetista de boa parte da população.
Desafios I
Entretanto, há desafios para Bolsonaro no 2º turno. Se o líder mantiver os votos que teve no primeiro turno, precisará conquistar menos eleitores novos. Bastante rejeitado por uma parcela da população que o considera uma ameaça aos direitos humanos e à democracia, Bolsonaro terá de escolher se fará acenos a uma nova parcela do eleitorado ou se vai redobrar a aposta no discurso extremista. Os principais pilares de sua rejeição têm relação com machismo, racismo e temor de desrespeito às regras democráticas.
Desafios II
Haddad também tem seus desafios agora para o 2º turno. O petista tem de conquistar uma parcela significativa de novos eleitores se quiser ser mais votado que Bolsonaro. Para isso, precisa diminuir a rejeição que o PT tem, principalmente ligada a temas como corrupção, radicalização de discurso de esquerda e má gestão da economia. Nesse ponto, Haddad vem sendo pressionado a fazer um aceno aos não petistas, nos moldes do que Lula fez em 2002 com a escolha de José Alencar para vice e a Carta ao Povo Brasileiro, em que o petista prometia cumprir contratos e manter os pilares da gestão macroeconômica. Esperemos, como diz o ditado, que “bicho vai dar”.

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