Tópicos da Semana – Edição de 11/05/19

Publicado em 11/05/2019 00:05

Por Lelo Sampaio.
Charge: Leandro Gusson (Tatto).
 
Os LGBTs e o suicídio
 
Aos 16 anos, mais precisamente em 2014, depois de sofrer o maior dos conflitos internos, decidindo assumir sua sexualidade, foi um dos passos mais difíceis a ser dado em sua vida. A aceitação por parte dos pais não aconteceu, e foi enxotado de casa como se fosse um móvel velho, e foi justamente a partir daí que passou a ter os seus primeiros momentos de opressão e depressão. Tempos depois fora constatado que passava por um profundo quadro de depressão, e tudo foi piorando com o passar dos anos, embora nunca fosse de demonstrar tais sentimentos, mas os amigos e alguns familiares percebiam seu terrível estado. Buscou, por vontade própria, tratamentos terapêuticos e medicamentosos, que por ironia foram ceifados por seus pais, alegando que não havia necessidade de tais cuidados, pois nada de errado havia ali. O alarme estava dado!!!
 
Depressão
 
Seria um relato qualquer, de alguém qualquer, em qualquer lugar do mundo se não fosse justamente o de uma pessoa de nosso convívio, que pode ser nosso filho, nosso irmão ou nosso vizinho, mas o fato é que a depressão, caracterizada por uma tristeza profunda, pensamentos negativos, baixa autoestima, culpa, estresse e alterações no sono são sinais de uma doença silenciosa e que merece ser encarada com mais atenção pela sociedade. A bem da verdade é que ainda acreditamos, de modo geral, ter maior conhecimento sobre a doença do século: a depressão, mas na realidade falta informação e muitos possuem uma concepção equivocada do problema e seus sintomas. A depressão deve ser levada a sério, deve ser desmistificada e não encarada com preconceito, carregando rótulos como “frescura”, “uma fase que logo passa” ou, ainda, “doença de preguiçosos”. O assunto deve ser mais debatido, pois nossos jovens estão morrendo.
 
Ceifar a vida?
 
E nesta trajetória de constante luta contra tal doença e tentando “abrilhantar” a mente de seus pais, enfrentou um dos piores quadros denominados por “depressão suicida”. Para ele, felizmente ou não, em suas quatro tentativas de suicídio, sempre conseguiu o apoio de pessoas que jamais imaginou ter, uma vez que sua família “virou as costas”. Determinado a por um fim em todo o sofrimento terreno e carnal, todas as tentativas, todas em 2019, no início deste ano fez a ingestão de duas cartelas de um medicamento que utiliza para problemas na coluna, o que ocasionou o desmaio e “por vontade de Deus tive mais uma chance e mesmo inconsciente vomitei tudo”. Sinal de alerta!!!
 
Tentativas
 
Naquele mesmo mês passou a ter transtornos emocionais e a se mutilar. Tentou um enforcamento na janela de seu quarto com o auxílio de um lençol, que acabou se rasgando, mas ficou por dias com algumas marcas no pescoço. Em março, mais uma vez tentou asfixia por meio de enforcamento, no qual uma amiga viu e o ajudou. No final daquele mesmo mês foi parar nos trilhos da linha de trem, se sentou e aguardou a vinda da locomotiva. Passada uma hora, uma conhecida o viu e, desesperada, foi correndo o ajudar. Levou-lhe até sua casa e ficou em sua companhia até que seus sentidos fossem recobrados. É um pedido de socorro!!!
 
Estado mais grave
 
Em seu depoimento, ele relata que a depressão o impulsiona a fazer coisas que jamais faria, e realiza tais atos como se não fosse ele, como se estivesse no anonimato ou inconsciente. Trata-se de um distúrbio afetivo manifestado por sintomas emocionais e físicos, com presença de apatia, pessimismo e baixa autoestima, que aparecem com frequência e podem combinar-se entre si, interferindo na habilidade do indivíduo para trabalhar, estudar, comer, dormir e apreciar atividades antes agradáveis. Onde está a família?
 
Estudo científico
 
Um recente estudo realizado no Brasil mostrou a relação entre a orientação sexual e o suicídio entre jovens gays. Os resultados mostraram que os homossexuais têm mais probabilidade de praticar o ato. Além disso, a pesquisa concluiu que o local de convívio social também exerce bastante influência. Com base nas respostas dos jovens entre 13 e 17 anos, a pesquisa concluiu que a probabilidade de um homossexual cometer suicídio é cinco vezes maior do que um jovem heterossexual. Porém, o ambiente em que o jovem convive pode fazer muita diferença. Os adolescentes que vivem em harmonia com seus pais e irmão e estudam em locais que aceitam melhor gays e lésbicas têm 25% menos probabilidade de tentar suicídio do que os ambientes mais repressores.
 
Mariquinha
 
Entretanto, desde que o mundo é mundo há a homossexualidade, o preconceito e a discriminação, e mais, se olharmos para as décadas de 60,70 ou 80, observaremos que a tão hoje propagada palavra Bullyng já existia naquela época, e mais, gays e lésbicas sofriam muito mais preconceito em casa e na sociedade e não se ouvia falar em casos de suicídio. Para se ter uma ideia de como era o panorama à época, um enfermeiro, quando saída da Santa Casa, local de seu trabalho, e ia para sua casa, ao passar pela rua 14, já considerada a principal rua de lojas da cidade, na medida em que ia passando pelos estabelecimentos comerciais se deparava com seus proprietários fechando suas portas, talvez por medo de que “aquilo pegasse”. As coisas eram muito mais difíceis e não havia relato de suicídios. Quanta gente hipócrita!!!
 
Macho-fêmea
 
Naquelas décadas muito se ouvia falar na figura do Macho-fêmea, termo pejorativo para designar lésbicas, e como sofriam. Eram esculhambadas, chamadas também de aberração da natureza, de doentes e que também precisavam de tratamento. Hoje está cientificamente comprovado que não há tratamento para a homossexualidade, até porque não se trata mais o caso como patologia. Entretanto, o que nos perguntamos é justamente o que mudou de lá para cá.
 
Explicando…
 
Segundo a psicóloga santafessulense Ana Carina Queiroz Marcato, vivemos em uma sociedade muitas vezes homofóbica, que emergem sentimentos negativos à população LGBT, os quais enquanto vítimas de homofobia podem chegar a sofrer com uma baixa autoestima, estresse crônico, abuso de substâncias, preconceito, depressão e por vezes, em casos mais extremos, a prática do suicídio.
 
E mais…
 
“Encontramos relatos de suicídio devido a prática homofóbica, que nos leva a ficar atentos para a necessidade de se enxergar o fenômeno homofóbico como um crime contra a vida. A população LGBT está sujeita a índices alarmantes de preconceito, com consequências fisiológicas e desfechos psicológicos negativos. Eles sentem na pele a ferida das expectativas de rejeição, do ódio e da incompreensão, da apatia que produzem: morte subjetiva, social e física”, destaca.
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