Após ataques em Paris, muçulmano que vive em Fernandópolis afirma estar passando por diversos constrangimentos

Publicado em 28/11/2015 00:11

Questionamentos surgem a respeito da relação do Estado Islâmico com a religião islâmica

Por Lucas Machado

capa muçulmanoPor serem adeptos ao Islão, que pode se referir também ao conjunto de países que seguem o Islamismo, religião monoteísta centrada na vida e ensinamentos de Maomé, que codificou sua doutrina no Alcorão, o livro sagrado que se tornou o fundamento escrito da fé, os mulçumanos sofrem preconceitos por intolerância religiosa, e principalmente pela relação que é estabelecida entre a religião e o Estado Islâmico, relação esta que, para Manik Bepary, que é mulçumano e vive em Fernandópolis desde janeiro de 2013, não deveria ser feita.
Após os ataques terroristas praticados pelo Estado Islâmico em Paris, na França, esta relação voltou a ser estabelecida, o que gerou uma série de comentários preconceituosos a respeito dos muçulmanos.
Indignado, Manik Bepary, que é muçulmano, natural de Faridpur, estado de Dhaka, em Bangladesh, publicou sua revolta em seu Facebook, após ter sido alvo de perguntas preconceituosas.
“Sinto-me chocado quando alguém me pergunta se uso arma ou se eu tenho bombas em casa, ou quantas pessoas já matei. Eles me perguntam isso porque sou muçulmano (…). Eu odeio terroristas de qualquer religião, e o Islã não aceita ou apoia terroristas. Islã significa “paz” em árabe, e nós, os verdadeiros islâmicos, respeitamos todas as religiões do mundo (…)”.
Sobre os ataques ocorridos na França no dia 13 deste mês, ele relatou em sua publicação que se sentia triste assim como todos. “(…) morreram cerca de cento e trinta pessoas por causa do ataque terrorista. Eu me sinto muito triste por isso, como você se sente (…). Grande parte do mundo ocidental julga os muçulmanos e nossa religião sem nos conhecer realmente (…)”.
Em entrevista a O Jornal, Manik relatou que se entristece quando as pessoas confundem o Estado Islâmico com os muçulmanos. “Em nome de Allah, o misericordioso, gostaria de esclarecer algo que confunde as pessoas. Islamismo ou Islã é o nome da religião, e muçulmano é aquele que segue essa religião. No ocidente, muçulmano virou sinônimo de terrorista, mas isso não é verdade. É preciso esclarecer definitivamente essa questão. Islã é uma palavra árabe que quer dizer paz, portanto, quem é realmente muçulmano deseja paz, e não guerra. Infelizmente, esse grupo autodesignado Estado Islâmico é uma vergonha para nós, pois eles não são realmente muçulmanos”, explicou ele.
Manik disse também que Deus, ou Allah, não deseja a guerra, e, dessa forma, é preciso aprender um pouco sobre o Islã antes de fazer comentários equivocados. “O Estado Islâmico é um grupo criado por pessoas e Islã é a religião criada por Deus. Não é a mesma coisa”.
De acordo com ele, algumas pessoas que ele encontrou, perguntaram se ele tinha bombas em casa, quantas pessoas já havia matado ou se possuía armas.
“Fiquei muito chateado com isso, e percebi como pensam alguns ocidentais que confundem islamismo ou muçulmano com terroristas. Felizmente conheci muitas pessoas que me respeitam e entenderam que minha religião ou minha origem não tem nada de terrorista. É preciso ficar bem claro que o Islã não aceita o terrorismo e quando qualquer grupo usa seu nome, este não é muçulmano. Allah disse no Alcorão que quem mata uma pessoa é o mesmo que matar todos os seres humanos. A religião islâmica prega amor, paz, cuidado, respeito. Portanto, como os muçulmanos podem ser terroristas?”.
Ainda segundo Manik, o Estado Islâmico é um grupo que não é muçulmano, e foi criado por Israel e os Estados Unidos. “Lembre-se da guerra do Iraque, quando os Estados Unidos atacaram esse país dizendo que havia bomba nuclear no local, mas não havia nada. Dessa forma, a criação do Estado Islâmico é útil para americanos e israelenses poderem atacar países do Oriente Médio, por causa de interesses econômicos, visando, sobretudo o petróleo. Os Estados Unidos e o Israel não desejam que esses países estejam em paz. Sou muçulmano e amo todas as pessoas, respeito todas as religiões”.
Manik afirma que tem vontade de voltar para seu País, Bangladesh, pois não tem mais ninguém no Brasil, além de sua esposa, e, relatou também que sua família não está em perigo, uma vez que não há ataques em Faridpur.
“Muçulmanos querem paz. Eu sou muçulmano, não sou terrorista, e desejo a paz no mundo. Se alguém desejar saber mais sobre o Islão, esteja à vontade para conversar comigo através do e-mail manikb17@gmail.com ou pelo facebook (Mohamed Manik)”, finalizou Manik.
Ataques terroristas
Explosões ocorreram próximo ao Stade de France, em Paris, na noite do dia 13, durante um jogo entre as seleções da França e Alemanha, e, ainda, três tiroteios simultâneos; entre eles um ataque à casa de show Bataclan; que deixaram 112 mortos.
Dezenas de pessoas ficaram feridas em outros pontos da cidade, segundo a polícia parisiense. O principal autor dos atentados, o belga Abdelhamid Abaaoud, foi morto no dia 18, durante uma ação policial em Saint-Denis, na região metropolitana de Paris. Abdelhamid Abaaoud, de 28 anos, foi acusado de orquestrar os ataques com armas e bombas na França.

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