O Mundo do Não

Publicado em 29/11/2025 00:11

Solange das Flores Nascimento (Sol Flores) – Psicóloga psicanalista, atriz e diretora profissional e pós graduada em metodologia do ensino

Desde o primeiro choro, já é não. “Não chora.” “Não corre.” “Não fala alto.” “Não sonha tanto.” “Não acredita nisso.” “Não é hora.” “Não é certo.”
E assim, o ser humano vai aprendendo a se calar.
O “não” vira cerca, muro, limite. É ensinado como proteção, mas cresce como prisão. A alma vai se encolhendo pra caber no que os outros acham que é permitido. E o brilho, aquele brilho natural da infância, o brilho que cria, que experimenta, que ousa, vai sendo apagado.
A psicologia entende bem: o medo do “não” e o abuso do “não” são duas faces da mesma doença. O excesso de proibição gera culpa. A falta de negação gera destruição.
E o equilíbrio, esse ponto de lucidez, parece ter se perdido no barulho das certezas.
Vivemos tempos de inversão. Dizemos “sim” pra tudo que nos adoece, pra pressa, pra mentira, pra mediocridade, pra indiferença. E dizemos “não” pra tudo que poderia nos curar, pra arte, pro amor sincero, pro silêncio, pro descanso, pra fé que não oprime.
As pessoas têm medo de viver. Medo de errar. Medo de sentir prazer. Medo de dizer o que pensam. Medo de contrariar. O “não” se infiltrou nas veias como uma anestesia moral: ninguém quer incomodar, ninguém quer ser visto.
Mas o preço do “não” é alto demais. Ele tira o riso, a cor, a música, o toque, o espanto.
Ele transforma a vida numa rotina de obediência e arrependimento.
A arte, que sempre foi o “sim” mais bonito da humanidade, está sufocada pelo “não” coletivo. Não pode falar disso. Não pode mostrar aquilo. Não pode questionar. Não pode sentir demais. E o resultado é um mundo polido, limpo e morto, onde ninguém se permite ser inteiro.
A psicologia e a arte andam de mãos dadas pra lembrar o óbvio: viver é transgredir o medo. É aprender a dizer “não” pro que nos diminui, e “sim” pra tudo o que nos faz humanos.
O “não” do controle é o veneno. O “não” da consciência é o antídoto.
Talvez o que nos falte seja reaprender a usar o “não” com sabedoria, não pra impedir a vida, mas pra protegê-la.
Porque o verdadeiro pecado não é desobedecer, é passar pela existência inteira sem nunca ter dito um “sim” com alma.

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