A ARTE SE RETIRA… E O SILÊNCIO DIZ TUDO

Solange das Flores Nascimento (Sol Flores) – Psicóloga psicanalista, atriz e diretora profissional e pós graduada em metodologia do ensino
Depois de bater às portas, depois de confrontar o mundo, depois de se colocar diante do ser humano, a Arte tomou a sua decisão final: ela deu um passo atrás.
Não por derrota. Jamais. A Arte não perde, porque ela não compete. Ela apenas existe.
Ela se retirou porque percebeu que o ser humano não está pronto. Ou pior: acredita que está.
E foi nesse pequeno equívoco que a tragédia se completou. Quando a Arte deu esse passo para trás, algo estranho aconteceu: o mundo ficou mais barulhento, mas menos profundo. Ficou mais rápido, mas menos vivo. Ficou mais cheio, mas menos completo.
E ninguém percebeu, porque o ser humano tem essa habilidade impressionante de confundir movimento com sentido.
A Arte, de onde estava, observou.
Viu o ser humano correndo atrás de coisas que quebram, que acabam, que passam.
Viu o ser humano colecionando diplomas e perdendo sensibilidade.
Viu o ser humano construindo paredes e destruindo pontes.
Viu o ser humano enchendo o peito para dizer “eu sei”, quando tudo o que ele mostra é que não sabe nem o que sente. É fascinante. E triste. E ridiculamente previsível.
A Arte se calou, e o ser humano achou que venceu. Achou que, finalmente, a paz tinha chegado. O silêncio, a quietude…
Mas aquele silêncio não era paz. Era ausência. A ausência da única coisa que poderia ter salvado o humano de si mesmo.
Sem a Arte, o ser humano continuou vivendo, claro. Sobrevivendo. Ou achando que sobrevive.
Porque viver, de verdade, exige algo que ele não domina mais: profundidade.
A Arte, paciente, assistiu toda essa encenação. E pela primeira vez, sentiu uma espécie de compaixão irônica: “como pode uma espécie tão capaz, tão cheia de possibilidades, se contentar com tão pouco? Como pode olhar para o que é eterno e dizer “não serve”? Como pode desprezar justamente aquilo que o tornaria menos pobre por dentro?”
No final, a Arte entendeu algo que talvez o ser humano nunca entenda: a ausência dela não é punição, é diagnóstico. É o retrato fiel de um mundo que se escolheu pequeno.
Pequeno nos sentimentos, pequeno na visão, pequeno na alma.
E assim, a Arte se afastou. Não por orgulho, mas por respeito. A si mesma.
E o ser humano… continuou andando, tropeçando, insistindo, sobrevivendo no labirinto que ele mesmo criou. Sem perceber que, lá atrás, no passo silencioso da Arte,ficou tudo aquilo que poderia tê-lo tornado menos vazio, menos cego, menos bruto, mais humano!
Mas ele não viu. E talvez nunca veja, porque, no fim das contas, a maior ironia é essa: não é a Arte que o ser humano rejeita, é aquilo que ele poderia ser.

