A Pedagogia do Medo

Solange das Flores Nascimento (Sol Flores) – Psicóloga psicanalista, atriz e diretora profissional e pós graduada em metodologia do ensino
Gestão autoritária e a fabricação do Burnout
Há lugares onde o silêncio pesa mais do que o trabalho.
Você entra numa reunião e sente: ninguém está falando o que pensa, todos estão dizendo o que sobrevive. Isso é gestão por medo.
Não aparece no organograma, mas governa tudo. Ela não grita o tempo todo. Às vezes ela sussurra. Às vezes vem em forma de olhar atravessado, de ironia pública, de meta impossível entregue com um sorriso fino.
A mensagem é sempre a mesma: “Aqui, errar custa caro.”
E quando errar custa caro, a verdade desaparece.
As pessoas passam a: maquiar números, esconder problemas, fingir concordância, produzir o que parece funcionar.
A empresa acha que está ficando mais eficiente. Na prática, está ficando mentirosa.
O Burnout nasce exatamente aí.
Não do excesso de trabalho, mas do excesso de medo. Trabalhar muito cansa o corpo.
Trabalhar sob ameaça constante quebra a alma.
O cérebro entra em estado de defesa.
A criatividade morre.
A empatia seca.
A inteligência estratégica some.
Fica só o modo sobrevivência: entregar, agradar, escapar.
A pessoa começa a acordar cansada. Não porque dormiu pouco, mas porque nunca descansou do alerta. O sistema nervoso não sabe mais diferenciar escritório de perigo.
É por isso que o Burnout vem acompanhado de cinismo. A pessoa não fica apenas exausta, fica amargurada.
Porque percebe, no fundo, que está dando tudo para um sistema que só devolve ameaça. Empresas assim produzem heróis por um tempo. Gente que aguenta mais, entrega mais, suporta mais.
Até que quebram.
E quando quebram, são substituídos como peças defeituosas, enquanto a estrutura que os moeu segue intacta, orgulhosa de sua “alta performance”.
Gestão por medo é uma fábrica de Burnout com fachada de excelência.
Ela não quer pessoas inteiras. Quer corpos produtivos e bocas caladas.
E nenhuma empresa que se alimenta do esgotamento das suas pessoas sobrevive sem pagar um preço, nem que seja em silêncio, processos e gente indo embora por dentro antes de ir por fora.

