Onde falta ‘valor familiar’, sobra polilaminina e dignidade

Publicado em 27/02/2026 00:02

A nossa heroína de hoje é Tatiana Sampaio, uma mulher cujos títulos — graduação em Biologia, mestrado em Ciências Biológicas e doutorado em Biofísica — foram todos conquistados no chão da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). É a mesma instituição que, recentemente, viu-se sob os holofotes por motivos menos nobres, quando a filha de um ex-jogador de futebol rejeitou a matrícula em nome de supostos “valores familiares”. Enquanto uns dão as costas ao que não compreendem, Tatiana fez da UFRJ seu templo e campo de batalha. Ao contrário do barulho vazio das redes sociais, ela escolheu o silêncio fértil dos laboratórios para provar que o maior valor de uma família é, justamente, a possibilidade de devolver a ela o movimento e o abraço.
Ao contrário, Tatiana todo dia ela fazia tudo sempre igual. O roteiro era coreografado pelo hábito: o café, o banho, o trajeto até o Instituto de Ciências Biomédicas da UFRJ. Entre as paredes do Laboratório de Biologia da Matriz Extracelular, a Dra. Tatiana Sampaio habitava um universo que, para o mundo lá fora, parecia mudo. Ela falava de termodinâmica de proteínas e da associação de unidades moleculares — nomes áridos que faziam os interlocutores desviarem o olhar em jantares sociais.
Diziam que ela estudava o que “ninguém se importava”. Mal sabiam que, naquele silêncio estéril, ela tecia o amanhã.
A ciência, muitas vezes, é esse exercício de paciência infinita. É o teste que falha, a hipótese que se ajusta e o microscópio que revela, num dia qualquer de setembro, que o ciclo finalmente se rompeu. A rotina de Tatiana foi “atropelada” pela vida. O celular, antes um acessório esquecido, tornou-se um farol de urgências: entrevistas, dúvidas, mensagens de quem vê nela não apenas uma pesquisadora, mas uma portadora de milagres.
O motivo do alvoroço tem nome técnico, mas alma de ponte: polilaminina.
Uma proteína extraída da placenta que decidiu desafiar o veredito da paralisia. Ela não apenas “estuda” o neurônio; ela o convence a voltar a caminhar. Ela estende o fio — o axônio — onde antes havia apenas o vazio da lesão.
Enquanto a mídia catapultava o nome da professora, no outro lado da cidade, um homem redescobria o próprio corpo. Bruno, que após um acidente vira o mundo se resumir ao teto de um hospital, acordou e viu um dedo se mexer. Para ele, era só um dedo.
Para a ciência de Tatiana, era o Big Bang. Era a prova de que a “coisa que ninguém se importava” era, na verdade, a chave para abrir as correntes de uma cadeira de rodas.
Hoje, os 28 milhões de reais necessários para levar o remédio às farmácias são números em uma planilha, mas para Bruno e tantos outros, o valor é imensurável. Tatiana ainda sorri aquele sorriso pontual, mas agora o mundo inteiro presta atenção.
A rotina mudou, a paz acabou, mas o motivo é o melhor dos casos: a vida, teimosa e insistente, decidiu voltar a fluir por onde antes era deserto. Onde falta “vida familiar”, sobra polilaminina e dignidade.

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