A pobreza que mora dentro

Solange das Flores Nascimento (Sol Flores) – Psicóloga psicanalista, atriz e diretora profissional e pós graduada em metodologia do ensino
Pobreza real não é o bolso vazio, é a casa cheia.
Cheia de talvez um dia. Cheia de vai que eu precise. Cheia de coisas que não servem mais, mas que continuam ocupando espaço, como ideias velhas, medos antigos e histórias que já acabaram.
A casa vira um arquivo de sobrevivência. Nada é escolhido, tudo é guardado.
Não porque é útil, mas porque faltar sempre parece mais provável do que merecer.
Quem vive assim não confia no fluxo, confia na escassez.
O armário lotado não é excesso, é defesa. A gaveta entulhada não é bagunça, é trauma.
O “vou guardar” quase nunca fala de objeto, fala de uma crença silenciosa: “Depois talvez eu não tenha”.
E o ambiente responde fielmente àquilo que você acredita que merece.
Quem acredita que a vida é dura, constrói trincheiras. Quem acredita que tudo pode acabar, mora em depósitos. Quem não se sente digno de receber, passa a vida segurando.
Mas repare, quanto mais se guarda, menos se vive; quanto mais se acumula, menos se escolhe; quanto mais se protege, menos se permite.
Existe uma miséria sofisticada, socialmente aceita, invisível aos olhos, a miséria de quem nunca se autoriza a ter espaço.
Espaço para o novo. Espaço para o prazer. Espaço para o descanso. Espaço para o agora.
Organizar a casa, muitas vezes, não é sobre limpeza, é sobre luto.
Luto da versão que sobreviveu quando não tinha que sobreviver, e coragem para abandonar o personagem que acredita que sempre vai faltar, porque abundância não começa no que entra, começa no que você permite sair.
E talvez o gesto mais revolucionário que alguém pode fazer não seja ganhar mais dinheiro, mas jogar fora aquilo que só está ali para lembrar um passado que não precisa mais comandar o presente.
A casa fala. O corpo fala. A vida fala.
A pergunta é simples, e brutal: “o que você está guardando porque não acredita que pode receber de novo?”

