O Perfume da Inércia
O celular repousava sobre a mesa de mogno, mas a vibração era incessante. O empresário, dono da maior processadora da região, não precisava olhar as notificações para saber o que diziam. O cheiro já dizia por si. Aquele odor acre, uma mistura de esgoto a céu aberto com descaso público, invadia até os escritórios com ar-condicionado central.
O empresário sempre foi um homem de números, planilhas e filtros. Sua empresa era um relógio suíço de normas ambientais, segundo ele. Mas, naquela manhã, o pragmatismo deu lugar à indignação. Ele não chamou a secretária; abriu ele mesmo o aplicativo de vídeo.
Ajustou a câmera. Ao fundo, emoldurado na tela do celular, o certificado de conformidade da Cetesb (Companhia Ambiental do Estado de São Paulo) brilhava com seu selo de aprovação recente.
— Bom dia, cidadãos. Ou o que restou dele com esse ar irrespirável — começou, a voz firme, sem o habitual filtro corporativo. — Estou fazendo este vídeo porque cansei de ver o nome da minha empresa ser jogado na lama — ou melhor, no esgoto — toda vez que o vento sopra do lado errado.
Ele mostrou na tela o termo legal.
— Está vendo isso aqui? É a nossa última avaliação da Cetesb. Nota máxima. Filtros operando, resíduos tratados, tudo dentro da lei. Nós investimos milhões para não feder. Mas parece que a prefeitura investe apenas em desculpas.
Continuou o empresário concluindo, não com essas palavras, mas querendo dizer:
— Senhor prefeito, o “fedô” tem endereço e não é o meu CNPJ. É a sua inércia.
Provavelmente a rede de esgoto que transborda a cada chuva e a lagoa de decantação que virou um pântano abandonado. Essa situação não é apenas desagradável; é uma falta de responsabilidade com a saúde pública e com quem produz nesta cidade.
Com efeito, o cheiro do descaso não sai com banho. Ele impregna na gestão. Ou as autoridades ou responsáveis resolvam o problema do saneamento básico agora, ou o único rastro que a administração deixará na história desta cidade será esse odor insuportável. A população não aguenta mais. Resolva!
Ele encerrou a gravação com um toque seco na tela. Em menos de dez minutos, o vídeo tinha mil compartilhamentos. O “fedô” continuava lá fora, mas, pela primeira vez, o culpado estava sendo apontado não pelo nariz, mas pelo dedo de quem cansou de pagar a conta do silêncio, pois, segundo ele, quando a população reclama do Saae dizem que é ele o “culpado”. Cansou.
É preciso que os excelentíssimos vereadores saiam de seus gabinetes lusco-fuscos higienizados e venham sentir o “ar da graça” que o povo respira. Não basta fiscalizar o papel; é preciso fiscalizar o bueiro. Esta situação não pode continuar sob o manto do silêncio. As autoridades devem acompanhar cada centavo do saneamento, pois a omissão tem o mesmo cheiro da podridão que exala das ruas. Com a palavra as autoridades públicas!
Não adianta o prefeito fazer cara de paisagem diante da nuvem de mau cheiro que cobre a cidade; o nariz do povo não é latrina e a paciência do cidadão já evaporou junto com esse fedor insuportável.
Não era sonho, não era pesadelo, era realidade, triste realidade. O pesadelo teria sido um refúgio. A realidade, infelizmente, não oferece o benefício de acordar.

