O Peso do Jaleco e o Exame do Espelho
Dizem que o estetoscópio é um instrumento que amplifica o som do coração, mas, ultimamente, ele tem ecoado um ruído incômodo: o da incerteza. Em Santa Fé do Sul, o debate sobre o ensino médico deixou os consultórios e ganhou as esquinas. Não é para menos. Quando o assunto é formar médicos, não estamos falando de emitir diplomas, mas de confiar vidas.
Lembro-me de quando, em campanha para vereador, bati na tecla do Hospital Universitário para o Unifunec. Minha motivação era simples: medicina não pode ser tratada como “balcão de negócios”. Uma fundação pública carrega o peso do social; ela não tem o luxo de ser apenas uma engrenagem mercantil. Seu compromisso é com o paciente do SUS, com a excelência técnica e com a ética que não cabe em planilhas de lucro.
Recentemente, a nota 2 no ENAMED caiu como um balde de água fria, mas serviu de despertador. Ver dezenas de cursos pelo país funcionando sob o signo da mediocridade é assustador. Na medicina, a nota baixa não é um número num boletim; é um diagnóstico precoce de um risco futuro. O erro clínico, o descaso e o improviso acadêmico são sombras que não podem pairar sobre quem jurou Hipócrates.
O Unifunec está diante de uma encruzilhada e, ao mesmo tempo, de uma oportunidade de ouro. É o momento do “exame do espelho”. A diretoria precisa ter a coragem da transparência: abrir os planos, detalhar as melhorias e mostrar à sociedade que a nota 2 é apenas um ponto de partida para o resgate da qualidade.
A medicina exige o mesmo rigor que a OAB impõe aos advogados, porque tanto a liberdade quanto a saúde são bens inegociáveis. Prefeito, vereadores e a sociedade civil não podem ser meros espectadores. Precisamos ser fiscais da excelência e não podem as autoridades, principalmente o Prefeito fingir que nada está acontecendo, porque depois que o barco afundar não sobrarão sobreviventes dessa catastrófica gestão. Afinal, a cura e o cuidado são propósitos altaneiros que não aceitam atalhos. Santa Fé do Sul não quer apenas médicos; ela merece — e precisa — de mestres na arte de cuidar.
A mudança da competência (parcela de jurisdição) — ou seja, a definição de se o processo corre na Justiça Federal ou Estadual — é uma questão estritamente processual e não exime o Unifunec de sua responsabilidade civil, acadêmica ou social. essa transição de juízos não serve como escudo, nem como borracha para apagar os fatos ou diminuir sua gravidade. Pelo contrário, a mudança de foro apenas altera o juiz que analisará o caso, mantendo intacto o dever da instituição de responder pela qualidade do ensino e pela segurança dos futuros pacientes que se formarem.
Por fim, porém não menos relevante, é importante esclarecer que, ao contrário do que se propaga, a formação médica de excelência exige um cenário de prática que o Centro de Especialidades Médicas (CEMU) não consegue comportar sozinho. Enquanto o CEMU é crucial para ambulatórios e procedimentos de média complexidade, um Hospital Universitário é um laboratório de vida real, onde a internação, o tratamento, a UTI e a urgência ensinam a complexidade do paciente.
Sem um hospital próprio, o estudante é privado de acompanhar a evolução clínica contínua, o raciocínio médico em casos graves e a vivência em cirurgias de alta complexidade. Portanto, o Hospital Universitário não é apenas um espaço de saúde, mas um pilar inegociável para a formação de profissionais seguros e qualificados para o SUS.
A sociedade está na sala de espera, aguardando o próximo boletim.

