As receitas de bolo da ditadura
Fui de uma época em que, na vida universitária, lia o Estadão, a Folha de São Paulo e o Pasquim. No período dos anos 70 do governo militar, os jornais, exceto o Pasquim, se rebelavam contra a censura das artes e da imprensa publicando receitas culinárias e versos de Os Lusíadas, como forma de protesto a favor da liberdade de expressão.
As ditaduras não gostam de fatos incômodos. Elas preferem a imagem idealizada da perfeição, construída pela ideologia que as fez existir. Considerando que toda ideologia, por mais ampla que seja, é por definição excludente, as ditaduras, na verdade, não suportam o real — ou suposto real — quando mostrado a partir de quem está fora da bolha ideológica ditatorial. Por isso se incomoda com a divulgação do que acontece na sociedade para a sobrevivência do poder. É um pecado indesculpável, a partir da vulgaridade e imperfeição do mundo concreto, desmantelar o mundo idealizado e tido como perfeito para o abstrato “bem comum”.
A história se repete com os personagens que, de maneira hipócrita, lutavam naquele tempo contra a ditadura e, agora, no poder, praticam a mesma ideologia de gênero e a manipulação do nós contra eles.
Os artistas e compositores de “Quem te viu, quem te vê” e “Cálice”, respectivamente, Chico Buarque e Gilberto Gil, teriam de estar na rua se manifestando a favor da anistia e contra a corrupção. Os jornais tradicionais estariam reescrevendo as “deliciosas” receitas de bolo com sabores duvidosos.
Hoje, apesar dos eufemismos, a ditadura está de volta. O diabo é que, nesses sofisticados tempos, ela retorna com nova roupagem, ocultando-se como se não fosse.
Por enquanto ela se instalou, sem blindados nas ruas, mas ainda assim é uma ditadura, pois temos um ocupante do cargo máximo do Poder Executivo nacional que chegou a esse posto por meio de um golpe de mister.
As receitas de bolo e os espaços em branco continuam existindo, porém de outra forma. O requinte está em publicar o irrelevante, aquilo que de fato não tem importância, exceto na aparência, com o intuito de criar nuvens de fumaça que escondam a gravidade de alguns fatos políticos. Num certo sentido, a imprensa tradicional de esquerda, sem um jornal influente e popular como foi, por exemplo, o “hebdomadário” O Pasquim, ao atuar mais pela reação e menos pela ação talvez esteja fazendo o jogo das forças para arrancar do poder o ditador, exceto o sistema que a patrocina.

