Pitorescas estórias de um laboratório
Ao completar mais de meio século de laboratório, hoje posso me dar ao luxo de contar estórias inusitadas acontecidas durante esse tempo.
Uma delas se tornou clássica da história da cidade.
Você sabia que antigamente o teste de gravidez era feito no sapo? Quando o médico precisava do diagnóstico precoce da gravidez, ele escrevia a solicitação dessa forma: “Exame de gravidez pelo método de Galli Mainini”. Simplesmente recebíamos a urina da mulher e injetávamos no abdômen do sapo, no laboratório. Após duas horas, com uma pipeta Pasteur (tipo conta-gotas), colhíamos a secreção da cloaca do batráquio que era observada ao microscópio. Ao visualizarmos numerosos espermatozóides em movimento, o teste era positivo. Ao contrário, se a lâmina estivesse sem eles, o resultado seria negativo. O incrível desse experimento é que o Dr. Mainini descobriu que, ao injetar a urina de mulher grávida num sapo macho, a gonadotrofina coriônica, hormônio da gravidez presente no material, estimulava a produção de espermatozóides na cloaca do batráquio.
Com o passar do tempo fiquei especialista em colher sangue de criança. Certa manhã uma mãe de primeira viagem levou seu recém-nascido para fazer um hemograma. Como sou míope, tirei os óculos para realizar o procedimento. Imediatamente, a genitora se assustou: – Doutor, por que o senhor tirou os óculos? Foi quando lhe respondi: – É que eu não posso ver sangue…
Outra vez um menino marrudo do sítio foi fazer exame de sangue. Ele tinha uns oito anos. Aí, para tranquilizá-lo lhe disse: – Fique calmo, garoto, que é só uma formiga. Mas quando lhe piquei a veia, ele retrucou: – É saúva, doutor! Foi quando lhe respondi: – Mas é formiga, menino!
Quando colho o sangue, acho que peguei uma mania de perguntar para o paciente: – Doeu? Um dia fui colher sangue de uma senhora de uns 90 anos. Como de costume, lhe perguntei: – Doeu, minha senhora? Ela não me respondeu. Perguntei mais uma vez. Também nada de dizer alguma coisa. Na terceira vez, concluí que ela era surda. Que susto, graças a Deus que ela não estava morta.
Existe uma sala de coleta separada onde o paciente fica deitado. Numa manhã chuvosa, acabou a energia no laboratório. Sem opção de luz, acendi uma vela no local para fazer a coleta de sangue. Ao ver o ambiente fúnebre, o paciente se levantou assustado da poltrona e foi se embora. Foi a única vez que perdi um cliente assíduo.

