O Circo dos Horrores

Publicado em 23/05/2026 00:05

Solange das Flores Nascimento (Sol Flores) – Psicóloga psicanalista, atriz e diretora profissional e pós graduada em metodologia do ensino

Toda cidade monta seu próprio Circo dos Horrores. As luzes acendem cedo, as filas se formam a as pessoas entram carregando seus medos, suas certezas e sua necessidade desesperada de apontar alguém pior do que elas mesmas.
O nome muda conforme a época. Já foi praça pública, já foi hospício, já foi igreja, já foi televisão. Hoje, muitas vezes, cabe dentro de um celular, mas o espetáculo continua o mesmo.
O circo precisa de monstros. Alguém para rir. Alguém para excluir. Alguém para culpar.
Alguém para transformar em aberração coletiva, porque enquanto existe um “estranho” no centro do picadeiro o público consegue fingir que é normal.
E talvez esse seja o truque mais antigo da humanidade.
No Circo dos Horrores da sociedade, as atrações mudam o tempo inteiro. Ontem eram os corpos, hoje são as emoções. O gordo, o velho, o pobre, o gay, a mulher que envelheceu, o homem que fracassou, a criança difícil, a pessoa deprimida, o diferente, o sensível, o que não consegue acompanhar a velocidade cruel do mundo.
Todos em exposição. Todos iluminados pela mesma pergunta silenciosa: “o que há de errado com você?”
O mais assustador é que ninguém se acha cruel dentro do circo. As pessoas riem, comentam, compartilham, julgam, humilham e depois voltam para casa acreditando serem boas pessoas.
O horror moderno raramente usa correntes. Usa olhares.
Há pessoas que passam a vida inteira tentando sair da jaula onde os outros as colocaram. Algumas conseguem, outras começam a acreditar nas placas penduradas sobre suas cabeças. “Problemático.” “Louca.” “Fraco.” “Exagerada.” “Difícil.” “Ridículo.”
O preconceito funciona assim: primeiro a sociedade cria o monstro, depois se assusta quando ele sangra.
Mas existe uma coisa ainda mais triste no Circo dos Horrores, os monstros também assistem ao espetáculo.
Em algum momento, quase todos nós sentamos na plateia para julgar alguém.
E em algum outro momento, descobrimos que éramos a atração principal.
Talvez seja por isso que tanta gente tenha medo da diferença.
Porque a diferença lembra uma verdade insuportável: a normalidade é uma fantasia coletiva.
No fundo, ninguém passa ileso pelo picadeiro. A vida cedo ou tarde encontra um jeito de nos deformar um pouco. O corpo muda, a mente quebra, o amor acaba, a solidão chega, o tempo atravessa o rosto.
E então percebemos, tarde demais, que o verdadeiro horror nunca esteve dentro das jaulas. Estava na plateia.

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