O Público Também Faz Parte do Espetáculo

Solange das Flores Nascimento (Sol Flores) – Psicóloga psicanalista, atriz e diretora profissional e pós graduada em metodologia do ensino
No Circo dos Horrores, ninguém olhava para a plateia.
Toda luz apontava para os monstros. Para a Mulher Barbada, para o Homem Invisível, para o Menino que pedia desculpas, para o Palhaço que tremia quando alguém encostava nele.
O público adorava. Sentavam seguros na escuridão, mastigando pipoca e julgando vidas que nunca precisariam viver.
É fácil olhar para a dor dos outros quando ela acontece do lado de dentro da jaula, difícil é perceber o próprio rosto refletido no vidro, porque o público também faz parte do espetáculo.
Faz parte quando ri do menino estranho na escola, quando comenta o corpo de alguém como se fosse domínio público, quando transforma sofrimento em entretenimento, quando chama crueldade de opinião.
Faz parte quando vê alguém sendo destruído e escolhe o silêncio para não perder a própria posição na plateia.
O Circo dos Horrores nunca funcionou sozinho. Toda aberração precisa de aplausos.
Existe uma violência que não suja as mãos, a violência de assistir.
As pessoas gostam de acreditar que monstros são diferentes delas, mas quase sempre os monstros reais usam roupas comuns, têm vida normal e voltam para casa acreditando serem decentes.
O homem que humilha a esposa no jantar, a mãe que destrói a autoestima da filha disfarçando crueldade de cuidado, o grupo que escolhe uma vítima para rir junto, o adulto que chama uma criança de “difícil” quando ela só está ferida.
Quase ninguém se reconhece cruel. Esse é o problema.
No fundo, o público ama o circo porque ele oferece uma sensação temporária de superioridade. Enquanto alguém está sendo exposto no centro do picadeiro, parece que nossos próprios defeitos ficam invisíveis.
Por isso a sociedade cria monstros o tempo inteiro.
O gordo, o velho, o pobre, o sensível, o fracassado, o deprimido, o diferente.
Alguém precisa carregar a vergonha coletiva para que os outros consigam dormir em paz. E talvez a parte mais perturbadora seja essa: o público nunca percebe o momento exato em que começa a gostar da crueldade.
Começa pequeno. Uma risada, um comentário, um vídeo compartilhado, uma humilhação transformada em piada.
Depois cresce, e quando percebe, já consegue assistir alguém desmoronar sem sentir absolutamente nada.
Talvez o verdadeiro horror da sociedade não seja a existência dos monstros.
Talvez seja a quantidade de pessoas dispostas a comprar ingresso.

