Sentinelas da Liberdade: O Eco Vermelho e a Pátria da Língua
A memória é uma biblioteca de capas vermelhas, guardada no fundo de uma infância em Jales, onde o chão da vizinha, tia Nita, fazia divisa com a imensidão. Foi ali que os olhos de menino descobriram o templo dos livros e a voz imponente de Roberto Rollemberg. Ele, o maior tribuno que os júris já viram passar, o expoente da advocacia jalesense, carregava o porte dos homens que não se dobram. Nem mesmo quando as botas da ditadura de 64 invadiram seu escritório para uma “busca e verificação” ignorante.
O sargento, do Exército brasileiro, com uma sonora gargalhada de quem tudo pode, mandou recolher a heresia comunista. Levou quase tudo. Levou a biblioteca inteira pela cor do couro, porque a burrice fardada desconhecia que os grandes tratados do Direito se vestiam de escarlate (tom vibrante de vermelho). Rollemberg viu os livros partirem e, no silêncio altivo da inteligência, pensou com seus botões: “Eita povo burro”. Não o levaram preso naquele dia, mas deixaram plantada ali a semente da resistência jurídica. Inspirado por aquela estatura, o menino cresceu, vestiu a beca e voltou para dizer ao ídolo político e intelectual: “Me formei”.
— Prá que? — indagou o mestre.
— Bacharel em ciências jurídicas e sociais.
O sorriso de Rollemberg foi o maior dos diplomas. “Você foi um dos poucos que acertou minha pergunta. Muitos respondem ‘advogado’”. Diante do mestre, a revelação do sonho de infância que se cumpria: o de ser cientista. Cientista do Direito, em normas, na sociedade e culturalmente. O batismo veio imediato, carinhoso, eterno: “Meu bacharel preferido”.
Mas a trincheira de Jales e da região também se fazia no papel impresso, na escrita precisa e na defesa do direito público. Foi nas páginas do semanário que a admiração encontrou Alcides Silva, o diretor de inteligência cintilante e fulgurante, que hoje assiste, sorrindo lá do céu, ao comando firme de seu filho Lelo.
Alcides, o mestre que dominava a língua portuguesa “inculta e bela” com a mesma maestria com que Messi domina a pelota, já que estamos em tempos de Copa do Mundo. Era gramático, filólogo, linguista. Um lusófono impecável que desarmava a erudição com a simplicidade de quem se encantava com a pureza das coisas da terra, como a morcela e o chouriço que o “bacharel”, já advogado da Prefeitura de Três Fronteiras, lhe trazia no poente de sua idade.
Alcides sabia a hora da seriedade e a precisão da piada. Advogado público como poucos, daqueles que se contam nos dedos de uma única mão, nunca converteu seu talento em busca pelo “vil metal”. Nesse sentido também tinha a verve de um advogado criminalista, pois o vi fazendo o júri sobre o crime de “aborto e ele disse enfaticamente: a questão é de saúde pública, não de crime. Ali, onde o ouro do ‘vil metal’ nada valia, o tribuno erguia sua verve dativa por amor à causa, transformando o tribunal na trincheira dos desamparados, pois não havia o “convênio” e atuei muitas vezes nessa mesma situação.
O ouro de sua vida nunca foi o dinheiro; eram os amigos, as palavras bem postas, a retidão do caráter. Quantas vezes, no desafio da advocacia pública municipal que eu engatinhava, o socorro veio de sua mente brilhante.
Rollemberg e Alcides não eram apenas homens da lei; eram sentinelas da liberdade. Hoje, eternizados na saudade e na história, eles continuam como guerreiros eternos na memória do eterno bacharel que, agora, com o livro teve a oportunidade de homenageá-los.
No dia em que Santa Fé do Sul assopra mais uma vela em sua história, nossa melhor oração de parabéns é a memória viva e eterna dos saudosos e pranteados Roberto Rollemberg e Alcides Silva.

