Somos o que carregamos no coração, o resto é aparência

Solange das Flores Nascimento (Sol Flores) – Psicóloga psicanalista, atriz e diretora profissional e pós graduada em metodologia do ensino
Há pessoas que passam a vida inteira polindo a própria imagem, como quem lustra uma moldura esquecendo que o verdadeiro valor está na pintura.
Vivemos numa época em que se fotografa o sorriso, mas se esconde a alma. Em que se exibem conquistas, roupas, carros, títulos e seguidores, enquanto o coração, silencioso, muitas vezes permanece abandonado. Construímos fachadas resistentes e interiores frágeis.
Mas o coração não sabe fingir.
Ele denuncia quem somos quando ninguém está olhando. É nele que moram nossas intenções, nossas misericórdias, nossas invejas, nossas grandezas e nossas pequenas mesquinharias. O coração é o lugar onde a verdade mora antes que as palavras tentem disfarçá-la.
A neurociência nos mostra que as emoções repetidas moldam o cérebro. Cada ato de compaixão fortalece circuitos de empatia. Cada gesto de gratidão reorganiza a forma como percebemos a vida. O ódio constante, por outro lado, alimenta sistemas de alerta, aumenta o estresse e transforma o mundo inteiro numa ameaça. Aquilo que carregamos por dentro modifica, pouco a pouco, aquilo que nos tornamos.
A psicologia também nos ensina que ninguém sustenta uma máscara para sempre. Mais cedo ou mais tarde, o caráter escapa pelas frestas. Pode escapar num momento de crise, numa palavra impensada, numa decisão difícil ou na maneira como tratamos quem nada pode nos oferecer em troca.
É aí que a aparência perde a batalha, porque beleza envelhece, dinheiro muda de mãos, prestígio depende da memória dos outros, o corpo se transforma, as modas passam, mas um coração generoso continua deixando marcas mesmo quando o rosto já foi esquecido.
As grandes pessoas da história não permaneceram vivas porque eram bonitas.
Permaneceram porque carregavam algo que nenhuma fotografia consegue
registrar: coragem, amor, esperança, compaixão, justiça. O mundo raramente se lembra da roupa que vestiam. Lembra-se do que despertavam nos outros.
Talvez seja por isso que algumas pessoas entram numa sala e iluminam o ambiente sem dizer uma palavra, enquanto outras chegam cobertas de luxo e deixam apenas um vazio elegante. A diferença nunca esteve no que vestem. Sempre esteve no que carregam.
Somos feitos muito mais das emoções que cultivamos do que dos objetos que possuímos.
Cada perdão amplia o coração, cada rancor o aperta. Cada ato de bondade o fortalece, cada mentira o corrói.
A vida inteira é uma lenta construção desse lugar invisível onde ninguém consegue entrar, mas todos conseguem sentir.
No fim, quando o tempo apagar nossas fotografias, quando nossas roupas virarem poeira, quando nossos títulos forem apenas tinta desbotada em algum documento, restará uma única pergunta:
O que você carregava no coração?
Porque é isso que permanecerá na memória daqueles que cruzaram seu caminho.
Somos o que carregamos no coração. Todo o resto sempre foi apenas aparência.

