A dor que nunca aconteceu

Publicado em 8/08/2026 00:08

Solange das Flores Nascimento (Sol Flores) – Psicóloga psicanalista, atriz e diretora profissional e pós graduada em metodologia do ensino

Existe um sofrimento silencioso que consome mais vidas do que a própria realidade.
É o sofrimento da imaginação.
A mente humana tem um dom extraordinário, ela consegue viajar para lugares onde o corpo nunca esteve. Isso é maravilhoso quando sonhamos, mas se transforma em um pesadelo quando passamos a acreditar nos nossos próprios medos.
Antes da consulta médica, já imaginamos o pior diagnóstico.
Antes da conversa, já ouvimos palavras que ninguém disse.
Antes da viagem, já sofremos pelo acidente que nunca aconteceu.
Antes de amar, já sentimos a dor do abandono.
Antes de tentar, já experimentamos o gosto da derrota.
E, sem perceber, morremos um pouco todos os dias por acontecimentos que existem apenas dentro da nossa cabeça.
A realidade quase nunca é tão cruel quanto os roteiros que o medo escreve.
Nossa imaginação não conhece limites. Ela aumenta problemas, cria monstros, transforma sombras em gigantes e faz um pequeno obstáculo parecer o fim da estrada.
Enquanto isso, a vida continua esperando. Esperando que você dê o primeiro passo, esperando que você faça aquela ligação, esperando que você aceite aquele convite, esperando que você descubra que a coragem não é a ausência do medo, é a decisão de caminhar apesar dele.
Quantas oportunidades foram enterradas por uma tragédia que nunca aconteceu?
Quantos abraços deixaram de existir porque alguém imaginou uma rejeição?
Quantos talentos permaneceram escondidos porque a pessoa teve mais medo do fracasso imaginário do que vontade de conhecer a própria grandeza?
A imaginação é um presente quando constrói esperança, mas se torna uma prisão quando fabrica sofrimento. Por isso, quando o medo começar a contar histórias, faça uma pergunta simples: Isso está acontecendo ou apenas está acontecendo dentro da minha mente?
Muitas vezes, a resposta será libertadora, porque a realidade pode até machucar, mas a imaginação, quando é dominada pelo medo, tem o poder de fazer alguém sofrer mil vezes por uma única dor.
E nenhuma dessas dores existiu de verdade.
A vida pede uma coragem simples: a de abrir os olhos para o que é real e fechar a porta para aquilo que o medo insiste em inventar.
Quem aprende essa diferença descobre que a paz não nasce quando todos os problemas desaparecem, ela nasce quando a imaginação deixa de governar a alma.

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