O Desafio da Mobilidade Ativa: Da Tração Humana à Era Elétrica
Por décadas, o planejamento urbano brasileiro sufocou as cidades sob toneladas de asfalto destinadas exclusivamente aos automóveis. Essa escolha histórica congestionou as metrópoles e transformou o ato de pedalar em uma atividade de altíssimo risco. Dividir o espaço viário com toneladas de metal em alta velocidade, sem qualquer barreira física, é uma roleta-russa diária para milhares de trabalhadores e entusiastas do ciclismo.
Cenário que se torna ainda mais complexo com a explosão das bicicletas elétricas. Equipadas com motores de pedalada assistida, as e-bikes deixaram de ser brinquedos tecnológicos para se tornarem aliadas cruciais da mobilidade limpa. Elas democratizaram o ciclismo urbano, permitindo que pessoas vençam relevos acidentados, carreguem cargas e percorram distâncias maiores sem esgotamento físico extremo
No entanto, a pressa em adotar a tecnologia expôs o abismo da nossa infraestrutura: raras ciclovias continuam sendo meras pinturas no chão, desprotegidas e sem a largura e a segregação necessárias para comportar fluxos de velocidades diferentes, bem como o necessário regramento, evitando-se acidentes.
Mudar essa realidade exige coragem política para contrariar o fluxo do rodoviarismo, algo que a história recente prova ser viável e mensurável.
Durante a gestão de Fernando Haddad na Prefeitura de São Paulo (2013-2016), a malha cicloviária da capital saltou de acanhados 64 quilômetros para mais de 400 quilômetros de rotas dedicadas. A resposta social foi imediata: as contagens viárias registraram um aumento de 66% no volume de ciclistas. Mais importante do que o fluxo, a segurança validou o investimento, gerando, na época, uma redução expressiva de 34% nas mortes de quem pedalava.
Os dados do passado deixam uma lição clara para os desafios regulatórios do presente, em que órgãos de trânsito se mobilizam para ditar regras de velocidade e emplacamento. A verdadeira segurança não nascerá da burocracia ou da restrição aos veículos limpos, mas sim da urgência em redesenhar as ruas. O ciclista — seja ele convencional ou elétrico — necessita de barreiras físicas e rotas conectadas. Proteger a mobilidade ativa é um dever urbanístico indispensável para humanizar o espaço público, limpar o ar e salvar vidas.
Já passou da hora de as nossas cidades pararem de priorizar motores e começarem a blindar pessoas.

