O Eco do Silêncio e a Liquidez do Poder

Publicado em 22/08/2026 00:08

O filósofo Heráclito nos ensinou que nada permanece igual, exceto a própria mudança. No entanto, os homens que ascendem ao poder costumam sofrer de uma miopia crônica: acreditam que a cadeira que ocupam é um trono eterno, imune às marés do tempo. Esquecem-se de que o poder não é rocha; é névoa.
Assistimos recentemente, no cenário nacional, à derrocada de uma figura que outrora parecia inabalável. O “Capitão” da República experimentou a gravidade da história: o peso das instituições, o isolamento e o confinamento real da prisão. Mas a mesma física que derruba gigantes em Brasília atua, com idêntica precisão, nos microcosmos do interior paulista. Em Santa Fé do Sul, a presidência do Unifunec tornou-se o laboratório de uma melancólica lição de impermanência.
Ali, a inércia foi a escolha de gestão. Enquanto o Hospital Universitário clamava por movimentos e decisões, o que se testemunhou foi uma imobilidade quase meditativa — nenhuma palha foi movida. A consequência desse silêncio administrativo não tardou a se materializar: a nota 2 no Enade gravou, no currículo da instituição, o retrato de uma Medicina desamparada. A decadência acadêmica é, antes de tudo, o reflexo do abandono da liderança.
A pequenez de espírito costuma desenhar fronteiras imaginárias onde só deveria existir civilidade; ironicamente, o mesmo “capitão” local que um dia bradou do alto da ilusão de uma mesa do Tênis Clube que “aqui o Lula não entra”, como se a nossa Santa Fé do Sul fosse uma fazenda particular com porteira e dono, assistiu ao avesso da própria arrogância: Lula entrou na rampa de Brasília carregado pelos braços do povo, enquanto Benitez deparou-se com o peso do próprio fracasso acadêmico, batendo em retirada do Unifunec enquanto a história ainda lhe dava tempo de sair de fininho.
O destino do capitão nacional e do capitão acadêmico se entrelaçam na mesma verdade sociológica descrita por Karl Marx: tudo o que é sólido se desmancha no ar. O prestígio vira líquido, escorrega entre os dedos e evapora. O topo do mundo e a planície do esquecimento estão separados apenas por um sopro do tempo. As canetadas, as fardas ideológicas e os títulos de presidente perdem o sentido quando confrontados com o julgamento dos fatos e da própria história.
Ao fim da jornada, o que resta é o desfecho inescapável da nossa própria natureza biológica e existencial. Diante da ampulheta do universo, a vaidade política e o orgulho dos cargos se revelam como poeira cósmica. Retornamos à máxima eclesiástica que iguala o rei e o peão, o general e o burocrata: do pó viemos e ao pó voltaremos. Bem-aventurados aqueles que, enquanto tiveram o poder nas mãos, construíram algo que o tempo não pudesse transformar em nada.
Ao novo presidente da instituição, resta o voto sincero de que compreenda a urgência de um novo tempo: que pratique mais política e menos politicagem, mais fraternidade e menos egoísmo, trocando o bairrismo tacanho pela grandeza de espírito; que sua gestão seja humana e não soberba, pois se do pó viemos e a ele voltaremos, que o intervalo entre o início e o fim seja preenchido pela coragem de construir pontes, e não porteiras.

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