O Peso das Vozes e a Medida das Coisas

Publicado em 11/09/2026 00:09

No imenso balcão de negócios em que às vezes se transforma o debate público brasileiro, os números bailam com uma leveza assustadora. Fala-se de contratos de 134 milhões de reais, de pedidos públicos na casa dos 61 milhões, de articulações de bastidores envolvendo Mendonça, Vorcaro, e de rascunhos jurídicos que passam por mãos familiares sob as bênçãos invisíveis de Moraes.
As cifras bilionárias e os arranjos de compadrio cruzam as manchetes como nuvens passageiras. Para esses, o pragmatismo da engrenagem política oferece um manto de normalidade. Quase não há escândalo; há apenas o “cotidiano do poder”.
O motivo do silêncio, ou da indignação contida, talvez seja estético. Falta a esses personagens a rouquidão dramática. Falta-lhes a voz de Lula, ou o eco magnético de um “Lulinha” Sem o timbre que divide o país, as maiores fortunas parecem miudezas técnicas. Não há o apelo popular, não há o rosto do operário para estampar a indignação de quem assiste ao espetáculo da janela de um condomínio, no andar de cima.
É nesse cenário que a memória recente desenha sua maior ironia. O Brasil, essa nossa eterna desgraça de contradições, assistiu a um presidente ser arrastado ao calvário público, julgado e “condenado” por um tríplex no Guarujá e um sítio em Atibaia — propriedades que, no papel e na posse de fato, nunca foram dele. Enquanto as grandes jogadas de centenas de milhões passam ao largo do tribunal da opinião pública, o imaginário nacional preferiu se agarrar à mística de pedalinhos e cozinhas planejadas.
O operário-presidente virou o Cristo do Brasil: o corpo escolhido para sangrar e carregar todos os pecados de um sistema que ele não inventou, mas do qual se tornou o bode expiatório perfeito.
Insistem em vestir Lula ora com a coroa de espinhos de Cristo, ora com a corda de Tiradentes, porque para as elites é imperdoável aceitar que tirar o Brasil da fome, garantir isenção do Imposto de Renda até 5 mil, fazer o emprego bombar, impulsionar o crescimento do País e dar dignidade ao povo com o Minha Casa Minha Vida e o Bolsa Família, como exemplos, tenha sido obra dele — preferindo apagar essas conquistas para condenar o líder popular ao eterno veredito da prisão ou ao sacrifício do calvário.
Enquanto as conquistas do povo são silenciadas, a voz de Flávio Bolsonaro suplicando por 61 milhões soa como um hino sagrado, uma reza hipnótica e uma oração de absolvição nos ouvidos anestesiados dos sem consciência.
E assim, hipnotizados por essa melodia da impunidade, os sem consciência insistem em votar em um candidato cuja trajetória é moldada pelas sombras das ‘rachadinhas’, pelo silêncio constrangedor diante de fortunas inexplicáveis e pelo compadrio com figuras obscuras do poder. Preferem votar no herdeiro de privilégios, o articulador de contratos milionários que esconde sua própria culpa sob o manto da perseguição política, demonstrando uma cegueira deliberada que prefere premiar o cinismo e a ganância das elites do que reconhecer a dignidade devolvida aos mais pobres por políticas públicas efetivadas por Lula.
O nome ‘Lula’ funciona como um “gatilho (i)moral” que dispensa provas, indícios, lógica formal ou financeira, servindo apenas como pretexto para que os sem consciência descarreguem seu ódio, preconceito e maldade — os mesmos que escondem a própria história suja e cheia de privilégios para, hipocritamente, tentar ofender o líder popular.
Não é só inveja; trata-se de uma verdadeira patologia social: um delírio coletivo que anestesia a ética de uma parcela da população, fazendo-a aplaudir os escândalos dos ricos enquanto criminaliza a sobrevivência dos invisíveis. Há também algo de “pânico” de classe ao ver o filho do pobre na universidade, o trabalhador com prato cheio e o Brasil soberano, um rancor social tão profundo que prefere a hipocrisia da corrupção dos privilegiados ao milagre da dignidade popular.
Se o nome dele estivesse na frase, a heresia estaria cometida, correndo feliz pelos ocupantes da “Faria Lima”. Se o nome é Flávio, Mendonça, Moraes ou qualquer outro sobrenome da corte tradicional, o escândalo perde o sabor, vira burocracia, vira “o Brasil de sempre’.
Que tristeza o nome de Lula não está lá…depressão geral!!! Entenderam?
Salvar as aparências enquanto os verdadeiros contratos correm frouxos nos bastidores é o esporte favorito de uma elite que não tolera o operário no topo — mesmo quando ele é o único que sabe falar a língua do povo.
No teatro da indignação seletiva, prefere-se crucificar o símbolo a encarar o tamanho real do abismo.

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