O Crepúsculo da Doutrina Trump: Da Euforia de Caracas ao Isolamento Global e a Urgência da Soberania Brasileira
O início de 2026 parecia consolidar a hegemonia da segunda administração de Donald Trump com a captura de dois alvos na Venezuela, após uma monumental mobilização militar. Contudo, nove meses depois, o que se desenhava como um triunfo converteu-se no catalisador de uma derrocada geopolítica sem precedentes, transformando o mandatário num dos presidentes mais impopulares da história contemporânea. A promessa de pacificar a Ucrânia em cem dias ruiu diante da realidade, assim como as intenções desmedidas de anexação territorial sobre o Canadá e a Groenlândia.
Na Ásia e na Europa, o cenário de isolamento aprofundou-se drasticamente. A guerra comercial contra a China sofreu um revés definitivo, e as tentativas de fraturar o bloco eurasiano via aproximação com a Coreia do Norte fracassaram por completo. Simultaneamente, o enfraquecimento político do governo ecoou nas urnas europeias com a derrota aliada na Hungria, ignorando o esforço pessoal do vice-presidente David Vance. No Oriente Médio, a rejeição sumária do plano de paz de 15 pontos por Benjamin Netanyahu expôs fissuras na aliança com Israel, culminando em uma derrota estratégica severa na investida contra o Irã.
A perda de controle do tabuleiro global evidenciou-se nas margens do Mar Vermelho. A recente conquista da cidade-porto de Makha e da Ilha Perim pelos Houthis consolidou uma segunda frente aliada a Teerã, transferindo o domínio do Estreito de Bab al-Mandeb e das rotas petrolíferas sauditas para o eixo de oposição aos Estados Unidos. No campo econômico, a empáfia do secretário Scott Bessent mostrou-se inútil; mesmo com intervenções agressivas no mercado e a queima de reservas estratégicas, o preço do barril ultrapassou a barreira crítica dos US$ 107.
Para além dos confrontos diretos, a ruptura diplomática unilateral com aliados históricos do Atlântico Norte e da Ásia acelerou a fragmentação da ordem ocidental. Exemplos nítidos foram a suspensão dos exercícios militares com a Coreia do Sul e as sanções hostis contra o Canadá, quebrando uma tradição pacífica de mais de dois séculos. Esse vácuo de poder pavimentou o avanço definitivo do BRICS e da China em regiões estratégicas da Eurásia, da África e, de forma surpreendente, na América do Sul.
Mesmo sob o pretexto de contenção regional — como o encontro do Escudo das Américas no Panamá —, o pragmatismo chinês prevaleceu no continente americano. Autoridades de relevo, como o salvadorenho Ernesto Castro, o chanceler chileno Pérez Mackena e o próprio presidente equatoriano Daniel Noboa, buscaram Pequim em sinal de alinhamento irrestrito a Xi Jinping. Pressionado pelas iminentes eleições de midterm em novembro e pela guerra fratricida na extrema-direita republicana entre David Vance e Marco Rubio pela sucessão partidária, o governo Trump projeta hoje a imagem de um império hiperarmado, porém sem direção, cuja agressividade retórica apenas mascara sua incapacidade de ditar os rumos do planeta.
É nesse cenário de declínio que se torna ainda mais melancólica a posição da ala bolsonarista no Brasil, que insiste em prestar obediência cega a Washington, declarar “amor” público e bater continência à bandeira norte-americana. Ao transformar as terras do Tio Sam em refúgio e baluarte ideológico, suplicar “taxação” nos produtos brasileiros essa postura atenta diretamente contra a nossa soberania nacional. Diante de uma potência que historicamente promove a sangria econômica do continente, o momento exige que o Brasil adote uma postura de guerreiros e de firme resistência geopolítica, rejeitando o papel de colônia para assegurar sua independência em um mundo que já não aceita a submissão cega aos desejos americanos.

