A Raposa e a Gaiola
Havia uma raposa poderosa conhecida na floresta por sua vaidade e esperteza. Ela adorava zombar dos outros animais, gabando-se de que sua astúcia, agilidade e inteligência a tornava imune a qualquer armadilha silvestre.
Certo dia, ao cruzar uma clareira, ela avistou uma gaiola de ferro pendurada no galho de uma árvore. Dentro dela, um pequeno pássaro de asas amarelas e peito branco cantava melodiosamente.
A raposa aproximou-se, soltou uma risada debochada e disse:
— Mas que criatura lamentável você é! Passa a vida inteira trancada nesse quadrado de ferro, dependendo do alpiste e da água que o Rei Leão lhe dá. Olhe para mim! Sou livre, corro pelos campos, caço o que quero e não mudo minha jornada por ninguém. A liberdade é o maior tesouro do mundo, e você aceitou a escravidão por querer voar nas quatro linhas da floresta e ainda ser um animal honesto!
O canário parou de cantar, olhou para a raposa com serenidade e respondeu:
— É verdade que estou preso, dona Raposa. Minhas asas não podem me levar além destas grades e meu canto, às vezes, carrega a saudade da liberdade de expressão e do céu aberto para voar. Mas há uma grande diferença entre a minha situação e a sua.
— Que diferença pode haver? — desdenhou a raposa, estufando o peito.
— Eu sou livre e você é um prisioneiro. Eu fui trancado nesta gaiola por mãos ambiciosas — explicou o pássaro —. Já você, carrega a sua própria gaiola para onde vai. A sua onipotência, a sua vaidade, o seu egoísmo, a sua ânsia pelo poder eterno e a sua obsessão em provar que é melhor do que os outros a aprisionam muito mais do que a grade de ferro. Você anda com os cães de guarda e não corre por prazer, corre para fugir dos cães ou para caçar de forma implacável os seus inimigos. Você não tem amigos, porque não confia em ninguém e ninguém confia em você. A sua mente é o seu próprio cárcere.
A raposa tentou argumentar, mas as palavras da ave ecoaram profundamente em sua mente. Ela percebeu que, apesar de ter a floresta inteira para caminhar, vivia presa ao medo da rejeição e à armadilha do próprio orgulho. Sem dizer mais nada, ela colocou a cauda no meio das pernas e retirou-se em silêncio.
Moral da história: Muitas vezes, a pior prisão não é feita de grades visíveis, mas sim dos sentimentos negativos, da arrogância e do orgulho por alimentar um militante de uma ideologia suprema. Amanhã, apenas os próprios animais do reino florestal poderão reverter a condição caquética da raposa, colocando-a no seu devido lugar: numa gaiola de ouro.

