Metamorfose política

Publicado em 31/10/2026 00:10

Podemos associar a expressão “Metamorfose política” ao conto “O Sonho dos Ratos”, escrito pelo célebre autor, psicanalista, educador, teólogo e escritor Rubem Azevedo Alves.
Essa história faz uma reflexão crítica ao transformar um acontecimento do cotidiano em uma parábola política sobre o poder, o autoritarismo e a ilusão das revoluções entre opressor e oprimido. Um bando de ratos vivia aterrorizado por um gato implacável. Sempre que um camundongo tentava sair do buraco para buscar comida, o felino atacava. Unidos pelo ódio comum ao inimigo, os ratos passavam a se reunir em assembleias secretas para discursar, escrever críticas filosóficas e planejar o futuro.
Nessas reuniões, eles alimentavam um sonho utópico: o dia em que o gato seria exterminado e todos os animais seriam iguais. Eles afirmavam convictos: “Quando se estabelecer a ditadura dos ratos, então todos serão felizes”.
A grande reviravolta aconteceu quando o desejo deles se realizou: o terrível gato finalmente morreu. Sem o inimigo para temer, um dos ratos — geralmente o mais gordo e eloquente, que liderava os discursos — tomou o controle do armário de queijos. Em vez de partilhar o alimento igualmente como havia prometido, o novo líder se isolou no topo, passou a rosnar para os outros e assumiu exatamente a mesma postura tirânica do antigo felino.
O significado político dessa fábula é mostrar como indivíduos ou grupos que historicamente sofreram opressão podem produzir as mesmas práticas ditatoriais e autoritárias assim que alcançam o poder, tal como acontece na “Revolução do Bichos” de George Orwell. No enredo político o “rato ditador” esquece suas origens, promessas de igualdade e do seu ideal socialista assim que passa a controlar o “queijo”, na verdade, privilégios e recursos do Estado. Além do mais, a crítica mais contundente do autor é pelo fato de que, muitas vezes, os grupos (partidos) se unem apenas pelo ódio a um inimigo comum (o gato), e não por um projeto real de justiça e cooperação duradoura.
Moral da história: “Todo rato que vira dono do queijo vira gato”.

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